O mercado de serviços de assessoria financeira está inevitavelmente ligado ao mercado transacional e as suas tendências, por sua vez, estão muito relacionadas com a conjuntura económica, com as preocupações relacionadas com a sustentabilidade e com o investimento estrangeiro e no estrangeiro.
O relatório mais recente de M&A (fusões e aquisições) da Transactional Track Record (TTR) revela que o mercado transacional português registou, até outubro, um total de 371 operações, com valor total de 9,7 mil milhões, no qual 47% do total das transações possuem os valores revelados.
Em termos sectoriais, o sector de Real Estate foi o mais ativo até outubro, com 81 transações, seguido pelo sector de Internet, Software & IT Services, com 57 operações.
Ainda de acordo com o mais recente relatório do TTR, feito em colaboração com a Intralinks, os números de outubro deste ano representam uma diminuição de 21% no número de transações em comparação ao mesmo período de 2021, bem como uma queda de 42% do capital mobilizado. Sendo que em outubro, foram registadas 33 fusões e aquisições, entre anunciadas e encerradas, e um valor total de 421,28 milhões de euros.
As operações transfronteiriças (cross-border) dominam o mercado da assessoria financeira em 2022 e deverão continuar a dominar em 2023. Aqui, e quanto ao número de transações até outubro, Espanha foi o país que mais investiu em Portugal, contabilizando 38 transações. Em segundo lugar está a França, com 26 operações. Já as empresas portuguesas escolheram a Espanha e a Alemanha como principal destino de investimento, com 16 e oito transações, respectivamente. As empresas norte-americanas diminuíram em 45% as suas aquisições no mercado português, até outubro de 2022. Enquanto as aquisições estrangeiras no sector de Tecnologia e Internet diminuíram em 8% em comparação ao mesmo período de 2021.
Em relação aos fundos estrangeiros de Private Equity e Venture Capital que investem em empresas portuguesas, houve um crescimento de 29% no período, segundo o relatório da TTR.
As operações transfronteiriças põem o negócio da assessoria financeira, essencialmente, nas mãos de players internacionais. Para um advisor local as oportunidades acabam por se resumir ao “sell-side” e não tanto ao “buy-side”, como explica ao JEum especialista em banca de investimento.
Ranking dos assessores
No ranking de assessores financeiros por número de transações lidera o CFI – Corporate Finance International Portugal, com três operações. Já em valor, lideram em 2022 o JP Morgan Chase e o Seale & Associates, contabilizando 652,99 milhões, respectivamente. Os dados são do relatório mais recente de M&A da TTR.
Este ano, segundo fontes do mercado, um dos sectores que demonstrou maior dinâmica de M&A foi o tecnológico e digital, o que demonstra a crescente convicção dos investidores de que a disrupção tecnológica será um factor de criação de valor no futuro.
O sector das infraestruturas também tem estado na agenda. Para já não falar do sector do imobiliário, tendo 2022 assistido a algumas grandes operações, como a venda dos ativos da ECS à DK Partners, a venda da sede do Novobanco à Merlin Properties e, mais recentemente, a venda desencadeada pela VIC Properties dos seus três ativos imobiliários em Portugal e que conta com a assessoria financeira da Alantra.
Também o sector das energias renováveis, nas suas variadas vertentes, tem assistido a uma forte atividade de M&A, associada à transição energética que tem vindo a consolidar-se um pouco por todo o mundo. A tendência de 2022 prolongar-se-á por 2023, ou seja, a estruturação de financiamentos “verdes”; a assessoria a fusões e aquisições, nomeadamente em sectores chave para um mundo mais digital e mais focado em preocupações ESG (environmental, social, and corporate governance). As operações relacionadas com o sector imobiliário também continuarão a marcar a agenda da assessoria financeira.
O mercado de assessoria financeira não é alheio ao facto de, nos últimos anos, termos visto como as empresas portuguesas mais inovadoras têm sido capazes de angariar capital junto de investidores internacionais. O crescimento significativo da atividade de M&A associada à entrada de investidores financeiros no mercado português (tanto fundos de private equity como fundos de pensões e infraestruturas) e ao forte crescimento do negócio imobiliário em Portugal, enquadram o mercado da assessoria financeira.
As áreas de Private Equity, Venture Capital e Asset Acquisitions são destacadas no relatório da TTR, e até outubro, foram contabilizadas 33 transações de Private Equity, num total de 2,7 mil milhões. Houve uma diminuição de 10% no número de operações em comparação ao mesmo período de 2021.
Em Venture Capital, foram realizadas 83 rondas de investimentos e um total de 913 milhões de euros representando uma diminuição de 12% no número de transações.
Já no segmento de Asset Acquisitions, foram registadas 95 transações com um valor de 2,8 mil milhões, representando uma queda de 4% no número de operações.
Para 2023 o Programa Consolidar com co-financiamento público, promete marcar a agenda do private equity e capital de risco. Foram escolhidas 14 sociedades para gerirem fundos de capital de risco destinados a investimento na capitalização de PME e Mid Caps, no âmbito do Programa Consolidar, do Fundo de Capitalização e Resiliência (FdCR), gerido pelo Banco Português de Fomento e criado no contexto do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) nacional.
Forte concorrência
Há muito que a assessoria financeira deixou de ser apanágio dos bancos de investimento. As empresas de assessoria financeira e até as grandes consultoras estão cada vez mais ativas nessa área. Basta olhar para a transação, destacada no último relatório da TTR – a conclusão da aquisição da Maxive Cybersecurity (a holding que agrega duas das principais empresas europeias de cibersegurança MSSP, a S21sec e a Excellium) à Sonae IM pelo Thales Group. Com um valor da transação de 120 milhões de euros, a operação contou com a assessoria financeira da PwC España.
A evolução da economia mundial e da sociedade tem mudado o paradigma dos negócios e das empresas. O foco numa economia centrada nas pessoas, na sustentabilidade, no ambiente tem vindo a emergir. Uma tendência que está já a ter impacto na evolução do mercado de serviços de assessoria financeira é a Responsabilidade Social. As empresas estão cada vez mais orientadas para uma procura equilibrada entre lucro e um impacto social e ambiental positivo. Basta ver alguns dos negócios que marcaram o ano. Exemplo? O pacote de financiamento certificado como “green loan” que a Finerge acaba de obter.
A Finerge concluiu no início deste mês, uma operação de refinanciamento de 2,3 mil milhões que irá acelerar a sua expansão na Península Ibérica. Nesta operação, a Finerge foi aconselhada pelo Santander CIB, Latham & Watkins, Vieira de Almeida, EY e G-advisory. Já a A Allen & Overy fez a assessoria jurídica dos financiadores, o sindicato bancário composto pelo Santander, MUFG (Mitsubishi UFJ Financial Group), ING, Natixis e BNP Paribas.
Tagus Park – Edifício Tecnologia 4.1
Avenida Professor Doutor Cavaco Silva, nº 71 a 74
2740-122 – Porto Salvo, Portugal
online@medianove.com