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Daniel Sampaio: “Houve pessoas que falaram mas houve muitas que não falaram”

O psiquiatra é um dos membros da Comissão Independente para o Estudo dos Abusos de Crianças na Igreja Católica Portuguesa, que apresentou o relatório final. Salienta que é “fundamental” dar continuidade ao trabalho feito e espera que “esta oportunidade seja aproveitada pela Igreja”.
18 Fevereiro 2023, 16h45

De que forma deve ser trabalhado o perfil psicológico de quem quer tornar-se sacerdote?
Não é só o perfil psicológico que deve ser trabalhado. É a questão da sexualidade. Os temas da sexualidade podem ser trabalhados de muitas maneiras. É preciso uma maior abertura da Igreja em relação a este tema. A Igreja não concorda com os métodos contraceptivos, nunca apoiou a educação sexual. Tudo isso reflete uma atitude de fechamento em relação à questão da sexualidade. O que daí resulta é que, muito provavelmente, a formação dada aos padres nos seminários não tenha a formação aberta que é necessária em relação a esta questão. Sobre o acompanhamento psicológico, o que é fundamental é que, em situações de pressão e de ansiedade, possam ser encaminhados para consultas. Portanto, o perfil deve ser o de uma pessoa aberta em relação à sua sexualidade, que saiba o que deve fazer com ela, dentro do possível, e que não tenha manifestações evidentes de pressão e de ansiedade que possam dificultar, depois, o seu trabalho.

Essa mudança da Igreja seria importante para mudar o indivíduo que está inserido nesse contexto?
Exatamente. Aproveitemos o grande impacto do relatório para fazer mudanças a nível da sociedade em geral, chamando a atenção para esta questão do abuso sexual, melhorando a educação sexual nas escolas e ajudando as crianças a prevenirem esta situação; a nível da formação dos padres e das religiosas, trabalhar de uma forma mais aberta, que ainda não vimos isso. Esperemos que esta oportunidade seja aproveitada pela Igreja.

O que pode ser feito para prevenir os abusos?
É preciso capacitar ou empoderar as crianças, desde muito cedo. A criança deve ser ajudada a perceber que o seu corpo é um território absolutamente privado, em que só pode mexer a mãe e o pai, nem os irmãos devem mexer. Portanto, do ponto de vista da educação, ter desde muito cedo essa noção de que o corpo é um território em que nós é que temos de consentir que alguém mexa. O consentimento é algo que tem de se passar como mensagem na sociedade. Depois, a educação sexual na escola tem sido desvalorizada. É preciso que tenha mais preponderância, para consciencializar de todo esse tipo de situações e prevenir. A prevenção é fundamental. Se tivermos uma quantidade de pessoas prevenidas em relação a este assunto, o que vai acontecer ao abusador? Provavelmente, fica só pela internet, com imagens, e não se aproxima de ninguém.

Este relatório quebra um ciclo de silêncio. Isso pode facilitar a divulgação de mais casos no futuro?
Acho que pode ser um ponto de partida, o que é muito importante. Houve pessoas que falaram, mas houve muitas pessoas que não falaram. Temos de manter os canais abertos através dos serviços de psiquiatria; a criação de uma linha aberta para esta questão, porque é importante as pessoas poderem telefonar anonimamente; e, a partir de agora, fazer-se um trabalho de continuidade para que este esforço que fizemos não tenha sido em vão. Isso é fundamental – não connosco, já fizemos o nosso trabalho; com uma nova comissão, integrando pessoas da Igreja, mas com uma maioria de pessoas de fora da Igreja, que possa ir acompanhando este processo todo.


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