‘Bitcoin’ acordou o sistema financeiro mas falta transparência e apoio

Especialistas fazem balanço aos 10 anos desta moeda virtual: “acordou o sistema financeiro”, mas é preciso mais transparência no processo de formação dos preços e apoio institucional.

Nos dez anos da mais famosa das moedas virtuais, a agência de noticias Lusa foi ouvir especialistas sobre o que mudou e o que é necessário fazer.

“A ‘bitcoin’ foi revolucionária no sentido em que acordou o sistema financeiro para uma possível revolução nos meios de pagamento. As instituições de pagamento acomodaram-se e não desenvolveram tecnologias para aumentar a rapidez e diminuir os custos para os utilizadores”, referiu Pedro Lino, economista da Dif Broker. O especialista recordou que a ‘bitcoin’ foi a primeira aplicação em tecnologia de ‘blockchain’ [tecnologia que permite guardar dados de forma descentralizada] que permitiu realizar transferências ou fazer pagamentos em tempo real e em qualquer parte do mundo, através de registos imutáveis”.

Também Filipe Garcia, economista da IMF – Informação de Mercados Financeiros, considerou que “a ‘bitcoin’ ultrapassou uma das primeiras grandes barreiras, que é a da notoriedade, e ainda que esteja muito longe de ser conhecida pela maioria da população, muitas pessoas já sabem da sua existência, mesmo que não saibam exatamente o que é”.

Questionados sobre o que é preciso para a moeda virtual atingir a maturidade, os especialistas ouvidos pela Lusa consideraram que é necessário existir maior transparência e apoio institucional.

“Falta ainda, sobretudo, muita transparência no processo de formação dos preços. Por outro lado, porque há quem considere que é o futuro dos meios de pagamento, esta tecnologia ainda necessita ser bastante melhorada”, considerou Rui Bernardes Serra, economista-chefe do Montepio.

Para Filipe Garcia, “algo que seguramente ‘faz falta’ é o apoio institucional por parte de governos, bancos centrais e supervisores”, e o economista acrescentou que é “um apoio que poderá nunca chegar, tendo em conta que parte do que a ‘bitcoin’ propõe coloca-se precisamente como alternativa aos Estados e aos sistemas centralizados”.

“Para atingir a maturidade era necessário que a deixassem evoluir e tornar-se um meio de pagamento globalmente aceite, o que não é o caso”, indicou, por seu turno, Pedro Lino, para quem os principais desafios que se colocam à ‘bitcoin’ no curto prazo são a concorrência do sistema financeiro e dos próprios bancos centrais que estão a desenvolver as suas próprias criptomoedas.

“Os que investem na ‘bitcoin’ a pensar que poderia ser uma alternativa às moedas convencionais ou que estas poderiam acabar, estão enganados, uma vez que os bancos centrais perceberam a tendência e o perigo que estariam a correr se não desenvolvessem algo semelhante para as suas moedas”, referiu.

Na avaliação de Rui Bernardes Serra, o principal desafio que se coloca à ‘bitcoin’, do ponto de vista tecnológico, é melhorar a tecnologia, “para se aproximar do ‘standard’ dos meios de pagamentos”, e, do ponto de vista de ativo financeiro, é o processo de formação dos preços.

Num futuro não muito distante, Pedro Lino acredita que a ‘bitcoin’ contribuirá para que outras áreas possam aplicar o ‘blockchain’, como na transação de bens mobiliários ou imobiliários.

“Como meio de pagamento será um desafio, uma vez que os grandes bancos estão atentos e estão eles próprios a desenvolver mecanismos para aumentar a eficiência e velocidade das transferências”, antecipou.

Questionados sobre o que se pode esperar do preço da moeda virtual, o economista da Dif Broker antecipou que, à semelhança do último ano, se pode esperar que a queda continue, mas salientou que “um dos fatores que pode fazer mudar a tendência é a aceitação por parte dos governos de que este pode ser um meio de pagamento alternativo”.

Já Rui Bernardes Serra referiu que a “questão para um milhão de dólares” é saber efetivamente o ‘fair-value’ da ‘bitcoin’, ou seja, o ‘valor justo’.

“Confesso que não sei, mas podemos evocar uma célebre frase de Wall Street atribuída a vários magos das finanças americanas do início do século XX, quando lhes perguntavam o que ia acontecer às ações. E a resposta era: “vão flutuar”, ou seja, volatilidade”.

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