Carlos Gaspar: “É preciso ser corajoso para ser moderado”

Raymond Aron foi um dos grandes intelectuais do séculoXX. Filósofo, cientista político e jornalista, francês e judeu,patriota e cosmopolita, marcou de forma profunda a leitura política daquele tempo. No livro “Raymond Aron e a Guerra Fria”, Carlos Gaspar traça o percurso desta figura e, através dele, dá-nos um importante enquadramento de leitura para as dinâmicas políticas dos dias de hoje.

Numa era marcada pela incerteza, na qual as paixões nacionalistas voltaram a ganhar fôlego, as relações de poder entre as grandes potências mudaram e os eleitores redirecionam votos para novos partidos, fora do establishment, o novo livro de Carlos Gaspar é um contributo para uma leitura do mundo político atual. O investigador do Instituto Português das Relações Internacionais (IPRI) e professor universitário homenageia o filósofo, cientista político e jornalista Raymond Aron, no livro “Raymond Aron e a Guerra Fria”, publicado pela Alêtheia Editores, e traz à luz dos nossos dias através do passado, pistas para o futuro.

Em entrevista ao Jornal Económico, Carlos Gaspar explicou a necessidade de dar a conhecer a vida de Aron como uma ferramenta útil naquele que considera ser o regresso dos demagogos,” tal como foi a Guerra Fria”, época em que o intelectual francês viveu.

“Aron foi sozinho, isolado muitas vezes, uma voz que quis denunciar a demagogia. Ensinava nas suas aulas de teoria política que a pior forma de corrupção na democracia era a demagogia. Acho que tinha razão e voltámos aos tempos da demagogia. Os tempos que estamos a atravessar são tempos de grande confusão intelectual”, disse.

Carlos Gaspar defendeu que “há pessoas responsáveis que acham que o presidente Vladimir Putin é o salvador do Ocidente, outras também muito responsáveis que acham que o presidente Xi Jinping é o garante da globalização. Esse tipo de confusão mental é próprio do tempo dos demagogos”.

“Os exemplos podiam continuar. Mais tweet, menos tweet, a lista é longa. Mas vale a pena, em primeiro lugar, saber reconhecer que o tempo dos demagogos não foi inventado no nosso tempo. É recorrente, é um ciclo e é particularmente perigoso e danoso nas democracias ocidentais, que são regimes abertos, pluralistas, onde a liberdade de imprensa, a liberdade de expressão são indispensáveis e estruturais na definição do regime”, acrescentou.

O professor da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa explicou que a integração de posições distintas na sociedade moderna é particularmente difícil. “É quase um milagre quando as elites conseguem ter a credibilidade indispensável para definir políticas racionais no domínio internacional e da política interna”, disse.

É neste sentido que mais uma vez considera útil a posição de Raymond Aron sobre política. Aron não era um realista clássico para quem única preocupação residia no Estado e nos interesses nacionais. Esta leitura ficou clara quando classificou o século XX como o século das guerras totais, dominadas pelos interesses e paixões. É precisamente este fator que o distingue do realismo clássico.

“Hoje em dia assistimos ao regresso das paixões políticas na polarização cada vez mais intensa que existe. Em primeiro lugar, na política dos EUA, mas também na Europa Ocidental, na divisão entre os partidários e os opositores do Brexit. Há um elemento de paixão – a paixão nacionalista – que marca essas posições”, considerou. “Se não compreendemos que entrámos nesse novo tempo, temos mais dificuldade em prever como é que as coisas se vão passar nos próximos cinco anos, nos próximos dez anos. O regresso das paixões, o regresso dos demagogos, o regresso da polarização política é aquilo que marca o nosso tempo”, acrescentou.

O regresso das paixões nacionalistas coloca, assim, a soberania dos Estados novamente no centro das relações internacionais? Para Carlos Gaspar “uma concepção moderada, temperada do que é a soberania dos Estados pode existir na Europa Ocidental, enquanto as democracias forem fortes e o consenso europeísta se mantiver”.

No entanto, reconhece que mesmo na Europa Ocidental, polacos, húngaros, italianos, espanhóis e britânicos “querem ser primeiro britânicos e depois europeus na melhor das hipóteses”.

Já no que diz ser a “pior das hipóteses  que se está a tornar cada vez mais frequente  querem ser primeiro polacos, depois polacos e finalmente polacos”.

“Com certeza que o fazem não apenas em nome da identidade nacional, da identidade histórica, mas também na defesa de interesses soberanos dos Estados”, disse, acrescentando que “fora da Europa, a soberania é uma regra quase absoluta”.

É neste âmbito que explica a diferença clara e importante para Aron sobre a ética das convicções “aquela que legitima a acção dos demagogos, dos profetas ou dos santos, que têm uma ideologia, um ideal excepcional e que agem em função de uma visão idealista ou revolucionária do seu mundo, sem se preocuparem com as consequências dos seus actos” à ética da responsabilidade. “Esta subordina as nossas convicções, as nossas paixões às consequências dos nossos atos. Os decisores políticos, os decisores económicos, os cidadãos que são decisores cívicos, devem agir tendo em conta assumida responsabilidade pela consequência dos seus atos e isso é mais importante do que ser fiel às nossas convicções. Há muitas formas de corrupção e não ser responsável é uma forma de corrupção”, defendeu. É por isso que volta a recordar uma das lições de Aron: “é preciso ser corajoso para ser moderado e é preciso ser valente e muitas vezes ficar isolado para opor à ética das paixões a ética das responsabilidades”, concluiu.

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