O vencedor das eleições legislativas de maio na Tailândia perdeu esta quinta-feira a possibilidade de ser nomeado primeiro-ministro e formar governo, com as fações mais conservadoras e apoiantes da monarquia a bloquearem a ascensão do político pró-democracia ao poder depois de quase dez anos de liderança militar.
Pita Limjaroenrat, líder do Partido Seguir em Frente, não tinha concorrência no voto parlamentar desta quinta-feira, mas mesmo assim não conseguiu assegurar a maioria necessária para garantir a nomeação para primeiro-ministro. As eleições de maio conferiram à coligação de oito partidos liderada por Limjaroenrat 312 assentos no parlamento de duas câmaras, sendo necessários pelo menos 375 votos a favor.
A tarefa afigurava-se difícil, dado que o Senado, a câmara alta do parlamento tailandês, não foi a votos e os seus 249 membros haviam sido nomeados pelos militares no poder desde 2014, depois de uma reforma constitucional que centralizou ainda mais poderes.
No final da votação, Limjaroenrat havia reunido 323 votos a favor, com 13 senadores a apoiá-lo, mas insuficiente face aos 182 votos contra e às 198 abstenções.
“Este não é um voto para mim ou para o meu partido, mas sim para uma oportunidade de voltar à normalidade na Tailândia”, afirmou Pita Limjaroenrat antes do arranque do voto parlamentar desta quinta-feira. Recorde-se que o país do sudeste asiático viu já dois golpes de Estado militares este século e mais de uma dúzia nos últimos cem anos.
O vencedor da eleição de maio, de 42 anos e com educação superior nos EUA, enfrenta uma montanha de desafios colocados pela fação conservadora e monárquica, com fortes ligações aos poderes estabelecidos e às famílias mais ricas do país, que controlam uma série de monopólios.
O mais recente foi conhecido esta quarta-feira, quando o Tribunal Constitucional aceitou uma queixa civil contra o candidato e o Partido Seguir em Frente pela sua vontade expressa de reformar as pesadas leis de lesa-majestade que ainda vigoram no país. Estas têm sido usadas frequentemente para silenciar críticas aos poderes que regem a Tailândia, sobretudo após os protestos de 2020, quando 25 pessoas foram detidas e acusadas ao abrigo desta lei, incluindo menores. A pena prevista vai de três a 15 anos de prisão.
Depois da esmagadora e surpreendente vitória em maio, conquistada muito à custa da promessa de reforma das leis de lesa-majestade e do apoio da população jovem, urbana e com níveis de educação mais altos, a rejeição pelo parlamento de Limjaroenrat ameaça aumentar a instabilidade política no país. O voto foi marcado por protestos à entrada do parlamento, ações que devem crescer nos próximos dias, com a juventude das grandes cidades a prometer lutar pelo reconhecimento do seu voto.
O processo seguirá agora com novo voto na próxima quarta-feira, 19 de julho, numa sucessão de impasses que se poderão prolongar durante várias semanas. Depois da rejeição de Limjaroenrat, a unidade da coligação de oito partidos será testada, visto que as restantes forças políticas poderão apresentar candidatos próprios como alternativa a Pita Limjaroenrat.
Depois da derrota na Assembleia Nacional esta quinta-feira, Limjaroenrat garantiu que o seu partido irá reformular a estratégia para a segunda ronda de votações de forma a garantir o apoio necessário para confirmar a sua nomeação como primeiro-ministro.
O Pheu Thai, a segunda força mais votada, vencedor crónico das eleições no país nos últimos anos e uma reformulação do partido que ocupava o poder aquando do golpe de 2014, deve propor uma candidata própria, Paetongtarn Shinawatra, a filha do antigo primeiro-ministro que se autoexilou para evitar acusações de abuso de poder pelo Governo militar do país. Shinawatra beneficia de bastante popularidade no país, sobretudo junto das populações mais vulneráveis e desfavorecidas, tendo também uma relação mais polida com a monarquia e os seus apoiantes.
[notícia atualizada às 14h48]
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