Os produtores de vinho da prestigiada região de Bordéus vão arrancar milhares de hectares de vinhas como resposta à alteração dos hábitos de consumo e ao aquecimento global – que atinge uma das jóias da coroa da indústria agrícola francesa. A decisão é surpreendente, mas as forças conjugadas do mercado e das alterações climáticas – um declínio no consumo de vinho tinto, a queda na procura da China e dificuldades em produzir vinho num ambiente cada vez mais quente – não dão margem de manobra.
O consumo de vinho tinto caiu significativamente nas últimas décadas, à medida que os bebedores franceses estão a voltar-se para outras bebidas mais refrescantes, como a cerveja, principalmente a artesanal. Enquanto as garrafas de alto padrão de Bordeaux, como grand cru, ainda encontram compradores com facilidade, a procura de vinhos tintos massificados está em queda.
Portugal já passou por isto – apesar de ter sido numa altura em que as alterações climáticas ainda não faziam mossa. O arranque de vinha foi uma prática comum há algumas décadas – para muito espanto de alguns produtores – mas revelou-se um exagero: anos mais tarde, a União Europeia, que tinha patrocinado o arranque, patrocinou novas plantações. Talvez os franceses venham a passar pelas mesmas etapas.
Seja como for, e segundo o jornal ”Político”, a diminuição da procura fez com que os preços caíssem a tal ponto que, para muitos enólogos, arrancar os seus vinhedos e obter compensação por isso é uma opção melhor que continuar a produzir.
O programa de arranque, anunciado no início deste ano no Salon de l’agriculture, visa reduzir a produção, permitindo que os viticultores reaproveitem a terra para outras atividades. Será implementado este outono, com os vinicultores a receberem uma compensação no final deste ano. Os recursos públicos serão usados para transformar vinho não vendido em álcool industrial para perfumes ou desinfetantes para as mãos – outra prática que foi muito asada em Portugal. As autoridades francesas estão a oferecer cerca de seis mil euros de compensação por cada hectare arrancado. Quase mil pré-candidaturas já foram apresentadas para o programa.
Enquanto um terço dos candidatos quer arrancar todas as suas vinhas e abandonar completamente a produção, os restantes procuram produzir menos e concentrar-se em vinhos de maior qualidade.
No segundo semestre de 2022, o preço dos tintos de Bordeaux caiu 21% em relação ao preço médio dos cinco anos anteriores, mostram dados do Ministério da Agricultura. Ao mesmo tempo, o preço médio dos brancos de Bordéus aumentou ligeiramente. Novamente, Portugal já passou por esta ‘sintomatologia’.
Quando se trata de exportações, a situação não é muito mais otimista. A China, que ainda é o principal destino das exportações de Bordéus, interrompeu todas as importações durante a pandemia e embora tenham sido reatadas entretanto, não atingiram ainda os níveis pré-pandemia. E pode ser que nunca atinjam. Em 2022, as exportações de Bordéus para a China caíram quase um quarto em termos homólogos.
Com os Estados Unidos como o segundo maior destino das exportações de Bordéus, as tensões comerciais minaram as trocas do outro lado do Atlântico. O ex-presidente Donald Trump impôs tarifas sobre o vinho francês como parte de uma longa disputa transatlântica sobre subsídios aos fabricantes Airbus e Boeing. Apesar de as tarifas terem sido removidas desde então, os enólogos dizem que os impactos persistem.
A mudança nas preferências dos consumidores é um dos principais motores da tendência de queda na indústria do vinho, já que as vendas de cerveja nos supermercados franceses podem superar o vinho pela primeira vez este ano, mostram várias pesquisas. Uma pesquisa realizada pelo conglomerado de mídia RTL no ano passado descobriu que o consumo de vinho tinto caiu 32% na última década, liderado pela faixa etária de 18 a 35 anos.
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