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Vinhateiros de Bordéus pressionados para arrancar a vinha

Em França, o consumo de vinho tinto diminuiu substancialmente nas últimas décadas, em favor da cerveja e de outras bebidas. A palavra de ordem é arrancar vinha. Portugal já passou pelo mesmo.
França, Bordéus
24 Agosto 2023, 12h07

Os produtores de vinho da prestigiada região de Bordéus vão arrancar milhares de hectares de vinhas como resposta à alteração dos hábitos de consumo e ao aquecimento global – que atinge uma das jóias da coroa da indústria agrícola francesa. A decisão é surpreendente, mas as forças conjugadas do mercado e das alterações climáticas – um declínio no consumo de vinho tinto, a queda na procura da China e dificuldades em produzir vinho num ambiente cada vez mais quente – não dão margem de manobra.

O consumo de vinho tinto caiu significativamente nas últimas décadas, à medida que os bebedores franceses estão a voltar-se para outras bebidas mais refrescantes, como a cerveja, principalmente a artesanal. Enquanto as garrafas de alto padrão de Bordeaux, como grand cru, ainda encontram compradores com facilidade, a procura de vinhos tintos massificados está em queda.

Portugal já passou por isto – apesar de ter sido numa altura em que as alterações climáticas ainda não faziam mossa. O arranque de vinha foi uma prática comum há algumas décadas – para muito espanto de alguns produtores – mas revelou-se um exagero: anos mais tarde, a União Europeia, que tinha patrocinado o arranque, patrocinou novas plantações. Talvez os franceses venham a passar pelas mesmas etapas.

Seja como for, e segundo o jornal ”Político”, a diminuição da procura fez com que os preços caíssem a tal ponto que, para muitos enólogos, arrancar os seus vinhedos e obter compensação por isso é uma opção melhor que continuar a produzir.

O programa de arranque, anunciado no início deste ano no Salon de l’agriculture, visa reduzir a produção, permitindo que os viticultores reaproveitem a terra para outras atividades. Será implementado este outono, com os vinicultores a receberem uma compensação no final deste ano. Os recursos públicos serão usados para transformar vinho não vendido em álcool industrial para perfumes ou desinfetantes para as mãos – outra prática que foi muito asada em Portugal. As autoridades francesas estão a oferecer cerca de seis mil euros de compensação por cada hectare arrancado. Quase mil pré-candidaturas já foram apresentadas para o programa.

Enquanto um terço dos candidatos quer arrancar todas as suas vinhas e abandonar completamente a produção, os restantes procuram produzir menos e concentrar-se em vinhos de maior qualidade.

No segundo semestre de 2022, o preço dos tintos de Bordeaux caiu 21% em relação ao preço médio dos cinco anos anteriores, mostram dados do Ministério da Agricultura. Ao mesmo tempo, o preço médio dos brancos de Bordéus aumentou ligeiramente. Novamente, Portugal já passou por esta ‘sintomatologia’.

Quando se trata de exportações, a situação não é muito mais otimista. A China, que ainda é o principal destino das exportações de Bordéus, interrompeu todas as importações durante a pandemia e embora tenham sido reatadas entretanto, não atingiram ainda os níveis pré-pandemia. E pode ser que nunca atinjam. Em 2022, as exportações de Bordéus para a China caíram quase um quarto em termos homólogos.

Com os Estados Unidos como o segundo maior destino das exportações de Bordéus, as tensões comerciais minaram as trocas do outro lado do Atlântico. O ex-presidente Donald Trump impôs tarifas sobre o vinho francês como parte de uma longa disputa transatlântica sobre subsídios aos fabricantes Airbus e Boeing. Apesar de as tarifas terem sido removidas desde então, os enólogos dizem que os impactos persistem.

A mudança nas preferências dos consumidores é um dos principais motores da tendência de queda na indústria do vinho, já que as vendas de cerveja nos supermercados franceses podem superar o vinho pela primeira vez este ano, mostram várias pesquisas. Uma pesquisa realizada pelo conglomerado de mídia RTL no ano passado descobriu que o consumo de vinho tinto caiu 32% na última década, liderado pela faixa etária de 18 a 35 anos.

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