No meio de declarações que se contradizem entre si, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, diz querer – é essa, nesta altura, a sua mais recente proposta – acabar rapidamente com a guerra contra o Irão, deixando em aberto a opção de ali regressar preventivamente para “ataques pontuais”, se necessários. Sem explicar em pormenor de onde virá essa necessidade, fica a supor-se que estes “ataques pontuais” sucederão se o Irão regressar à tentação nuclear, se o Estreito de Ormuz continuar fechado ao trânsito de navios petroleiros, se o regime de Teerão voltar a armar-se com mísseis balísticos e/ou se Israel solicitar nova investida (ou começar uma, como sucedeu a 28 de fevereiro passado e a 13 de junho do ano passado. Usando uma retórica que lhe é habital, Trump não quis ser claro sobre quando entende fazer regressar aos tropas a casa: “Não posso dizer exatamente… vamos sair daquilo muito em breve.” E repetiu: “eles não terão uma arma nuclear porque são incapazes disso agora, e então eu irei embora, e levarei todos comigo, e se for preciso, voltaremos para realizar ataques pontuais.”
O presidente dos Estados Unidos insiste que o Irão solicitou um cessar-fogo, mas que o pedido não seria considerado até que Teerão desbloqueasse o Estreito de Ormuz. Mais uma vez, o Irão negou qualquer pedido nesse sentido. Só para complicar ainda mais o desentendimento entre os envolvidos, fontes paquistanesas citadas pela agência Reuters disseram que Islamabad havia proposto um cessar-fogo temporário a ambos os lados, mas não recebeu resposta de nenhuma das partes.
A última vez que Trump disse que estava interessado em acabar com a guerra sinalizou que isso poderia acontecer em duas ou três semanas, mesmo sem um acordo, mas desta vez preferiu não avançar com horizontes temporais.
Entretanto, pelo menos 66% dos norte-americanos acreditam que os Estados Unidos devem encerrar rapidamente o seu envolvimento na guerra com o Irão, mesmo que isso signifique não atingir as metas estabelecidas pela administração Trump, segundo a sondagem Reuters/Ipsos que vai acompanhando a evolução da guerra. Apenas 27% dos inquiridos disseram que o país deveria alcançar todos os seus objetivos no Irão, mesmo que o conflito se prolongue por um longo período.
Entre os republicanos, 40% apoiaram o fim rápido do conflito, enquanto 57% apoiaram um envolvimento mais longo. Um total de 60% dos entrevistados disse desaprovar os ataques militares dos contra o Irão, enquanto 35% aprovaram.
Um dos efeitos mais visíveis da guerra tem sido o aumento do preço da gasolina, que ultrapassou os quatro dólares por galão (3,8 litros, ou seja, um pouco mais de um dólar por litro) na passada segunda-feira pela primeira vez em mais de três anos.
A vítima NATO
Entretanto, Donald Trump voltou a um tema que já abordou por diversas vezes: o da falência da NATO, que agora está maculada pela desconfiança com que Washington observa o facto de a aliança ter recusado acompanhar a investida militar no Irão – ao contrário do que fez no Iraque. Trump – que falou aos norte-americanos esta madrugada (a intervenção estava marcada para a uma da manhã) – afirmou que abordaria a questão, mas que estava inclinado a deixar a NATO.
Se isso suceder, é claro para todos os que será uma ‘sentença de morte’ para a organização. Francisco Seixas da Costa, comentador de assuntos internacionais, vai mais longe: “A NATO já está morta”, pelo menos desde que os países deste lado do Atlântico passaram a duvidar da eficácia do artigo 5º.
Antecipando a intervenção desta madrugada, Trump afirmou que expressaria o seu descontentamento com a NATO pelo que considera ser uma incompreensível falta de apoio da aliança aos objetivos dos Estados Unidos no Irão. E que está a ponderar “absolutamente” retirar os Estados Unidos da organização.
Ameaças diretas
Enquanto retira e não retira do Irão, Trump promete manter em alta a ação militar, o que resultou, do lado do regime teocrata de Teerão – que não dá mostras de ceder – numa ameaça direta a interesses norte-americanos fora do perímetro militar. A Guarda Revolucionária do Irão respondeu com uma nova ameaça, afirmando que atacará empresas norte-americanas na região em retaliação aos ataques contra o Irão. E lançou mesmo uma lista de 18 grupos, incluindo Microsoft, Google, Apple, Intel, IBM, Tesla e Boeing.
‘Bluff’ ou não, o certo é que a ameaça pode provocar novos danos nas economias da região, nomeadamente nos países árabes – que já estão a passar por graves dificuldades para escoarem os seus produtos de energia fóssil e estão a ver o forte setor do turismo ‘secar’ um pouco mais a cada dia que passa.
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