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Fundação Calouste Gulbenkian só aceitava vender a Partex por mais de 600 milhões

Há três anos, a Gulbenkian discutiu novo rumo a dar à Partex. Mas só agora surgiu o preço certo.
6 Julho 2019, 12h00

Quando a Fundação Calouste Gulbenkian (FCG) decidiu que iria vender a Partex, um administrador da fundação disse que só seria um excelente negócio se o preço atingisse 600 milhões de dólares. “Nessa perspetiva seria muito bom”, recorda uma fonte da fundação. Ora, a FCG chegou agora a esse valor. Mas o Jornal Económico (JE) sabe que os 622 milhões de dólares referidos como valor que a tailandesa PTTEP deverá pagar pela Partex, “incluem uma componente de contingência, que tem a ver com decisões sobre extensão de concessões”, comenta uma fonte conhecedora do processo.

De resto, o valor global do negócio é considerado “muito confortável” para a fundação. Durante o processo de venda da Partex foram identificados três tipos de compradores: as majors, que são as grandes corporações petrolíferas, como a Total e a Shell, “que não valorizavam a Partex, mas apenas as suas concessões, porque, para eles, acrescentar 1% ou 2% a posições que já tinham, seria irrelevante”, além, de que “não precisavam do management, nem dos trabalhadores, só das concessões”, comenta uma fonte conhecedora deste dossiê.
“Sempre admitimos que esses iriam oferecer valores muito baixos”, diz, por seu turno, uma fonte da FCG. E, realmente, o JE sabe que as majors ofereceram valores baixos.

Também houve ofertas de private equity – mas para eles “a justificação de um investimento faz-se ao preço mais baixo que for possível oferecer”, diz uma fonte conhecedora do processo. Depois houve um conjunto de empresas entre as quais seria preciso “ter sorte para identificar compradores que valorizassem os ativos e a Partex, porque queriam entrar nas geografias em que a Partex tem investimentos”, refere a mesma fonte. Neste grupo foi encontrado o interessado disposto a pagar um valor justo pela “entrada” em novas geografias de investimento.

Precisamente a tailandesa PTTEP, “que esteve em Omã há muitos anos e saiu, depois considerou que não devia ter saído e agora estava à procura de uma nova oportunidade de regressar àquele mercado”, observa a mesma fonte.

No conjunto deste grupo de interessados – diz –, “tivemos a sorte de encontrar três empresas que estavam nesta situação particular e com uma delas chegámos a um preço que estava absolutamente em linha com os nossos interesses”.

Sobre a aplicação do valor da venda, as fontes contactadas pelo JE admitem que essa será “uma questão muito clara” nas reuniões de trabalho do Conselho de Administração da FCG. “Isso é um não problema. A venda da ‘Nova Energia’ rendeu-nos 150 milhões e ninguém perguntou o que é que fizemos com esse dinheiro. Nem nunca nos perguntaram o que é que fazemos com os 2.400 milhões que estão aplicados ‘do outro lado’. Temos consultores internacionais. Temos uma política de investimentos, reuniões periódicas com consultores, comités de investimento. Em suma, estamos constantemente a olhar para o que é a nossa política de investimentos.

Dentro desta política, temos fatias da carteira alocadas a investimentos especiais: temos um programa de private equity que está a correr e a ser construído com uma fatia que foi alocada. Vamos alocar fatias da carteira a certos tipos de investimento, orientados pela política global de investimento. Quando temos uma carteira de 3.000 milhões, que é a dimensão da carteira da FCG, não são 600 milhões que vêm alterar os princípios de gestão, nem a estratégia da carteira”.

Sobre a mais-valia do negócio – que a presidente Isabel Mota já admitiu ao JE que será um pouco mais de 100 milhões de dólares -, “ainda não vamos dizer o valor em detalhe porque ainda não concluímos o fecho total desta transação”, remata a mesma fonte.

A Partex representa 18% da carteira de ativos de investimento da FCG. No entanto, a dimensão relativa da Partex pode ser diferente para a FCG porque no conjunto dos ativos da fundação não está registada a coleção do fundador – o JE sabe que o valor da coleção de Calouste Sarkis Gulbenkian não aparece no balanço da FCG. Sobre os ativos da FCG, quando se faz a comparação desta fundação com outras entidades semelhantes, ressalta o facto do ativo imobilizado composto pelos edifícios da FCG já estar amortizado, o que faz com que o valor destes ativos seja de “praticamente zero e, em cima disso, a coleção do fundador também está valorizada por valor zero, pois não aparece nas contas, o que é comum em coleções que não são compradas, pois a coleção do fundador não foi comprada”, explicou ao JE uma fonte da FCG. Por exemplo, a Coleção do Centro de Arte Moderna (CAM) foi comprada e essa já está inscrita no balanço ao custo de aquisição.

Se, teoricamente, se admitir que a coleção de Gulbenkian vale cerca de 1.500 milhões de euros, torna-se um ativo muito grande da FCG que relativiza toda a restante carteira de investimento, deixando-a proporcionalmente mais pequena. Quando são referidos 18% como correspondentes ao peso da Partex na Gulbenkian, esta percentagem traduz a quota-parte do seu valor na carteira de ativos de investimento.

Acontece que a decisão de vender a Partex foi duplamente relevante para a FCG porque há várias concessões da Partex que estão a acabar. A concessão do Cazaquistão acaba em 2024; e a concessão da fábrica de gás liquefeito em Omã também acaba na mesma altura. Resta a concessão do petróleo, que é a ‘grande concessão’.

Houve algumas oportunidades de investimento para as quais a FCG foi convidada. O JE sabe que uma delas foi no Abu Dhabi, onde a Partex poderia ter investido, mas esse potencial investimento num consórcio de exploração de recursos energéticos no Abu Dhabi – para a percentagem de 4% ‘oferecida’ à Partex – seria equivalente a duplicar a dimensão da Partex, ou seja, implicava um investimento de 600 milhões de euros.

O JE sabe igualmente que foi apresentada à Partex outra hipótese de investimento no setor do gás, no sultanato de Omã, mas esta operação acabou por ser transacionada a outros investidores por 1.500 milhões de euros.

Evitar compromissos a 40 anos
Estes potenciais investimentos estavam ao alcance do orçamento da Partex – se vendesse ativos conseguia concretizar estes investimentos –, mas o principal problema é que se concretizasse estes investimentos a Partex iria assumir compromissos a 40 anos no petróleo e no gás.

Assim, a FCG chegou a um momento em que teve de decidir se investia ou não investia em novos projetos para a Partex. Pelas experiências de diversificação que a FCG fez ao longo dos últimos 20 anos, percebeu que a diversificação é cara e que, “com o custo da diversificação, aquilo que obtém de rentabilidades está em linha com o que obteve na carteira de investimentos e, portanto, não se justificaria estar a assumir novos riscos com uma coisa destas”, explica uma fonte da FCG.

Pode questionar-se o que se passaria se a FCG tivesse investido mais nestes projetos? “Quando cerca de 80% da Partex já está investida no Omã, sobretudo no petróleo, em termos objetivos se investisse ainda mais no Omã estaria a aumentar a concentração no Omã e, numa perspetiva do risco, é impossível ignorar o risco político da concentração de ativos em uma geografia única”, admite a mesma fonte.

Porém, para uma empresa tailandesa como a PTTEP o efeito é o oposto. A PTTEP é uma empresa pública, cotada na Bolsa da Tailândia e integra o índice Dow Jones Sustainability Index. Opera desde 1985 e tem 46 projetos petrolíferos em 12 países. Mesmo assim, a PTTEP está concentrada no extremo da Ásia, o que torna a entrada no Médio Oriente fundamental para diversificar ativos.

Desinvestimento na Partex começou a ser discutido há três anos
Sobre a decisão de vender a Partex, o JE sabe que para a FCG havia uma questão de oportunidade, de risco, e também a avaliação do nível de rendimentos da carteira da Partex, que historicamente estiveram em linha com o resto da carteira. Fonte da FCG recorda que “começámos esta discussão há três anos”. Em 2018 a administração da fundação decidiu unanimemente desinvestir no sector do petróleo e do gás. A primeira ronda de contactos com potenciais compradores selecionou um grupo chinês, mas o respetivo processo foi inconclusivo. A segunda ronda culminou na negociação com os tailandeses da PTTEP.

A presidente Isabel Mota reconheceu que “esta transação marca a reconfiguração da base de ativos da Fundação”. No conjunto dos contactos desenvolvidos para selecionar o comprador da Partex, há quadros da FCG que trabalharam diretamente neste processo que praticamente não conseguiram gozar férias nos últimos três anos. “Nem havia fins de semana e muitos dias de trabalho prolongaram-se 14 horas”, comenta um participante no processo. “Na Tailândia começam a trabalhar cedo e, em Lisboa, quando acordávamos, às 7h00 já tinhamos 20 emails nas caixas de correio. E quando acabamos o nosso dia de trabalho eles continuam a trabalhar na Tailândia. Mesmo com o apoio de bons consultores, como a Jefferies, a Linklaters e a Morais Leitão, Galvão Teles, Soares da Silva & Associados o fluxo de trabalho era interminável. Foi non-stop”, recorda a fonte da FCG.

Artigo publicado na edição nº 1994, de 21 de junho, do Jornal Económico


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