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António Capucho: “O meu grande objetivo nas próximas eleições é derrotar aquele que foi o meu partido”

António d’Orey Capucho, ajudou a fundar o PPD com Sá Carneiro, do qual foi secretário-geral e vice-presidente, foi ministro e secretário de Estado. E foi expulso do partido há um ano. Acaba de dar o seu apoio público a António Costa. Objetivo, derrotar o partido onde militou 40 anos. Porque decidiu votar no PS e […]
11 Junho 2015, 00h02

António d’Orey Capucho, ajudou a fundar o PPD com Sá Carneiro, do qual foi secretário-geral e vice-presidente, foi ministro e secretário de Estado. E foi expulso do partido há um ano. Acaba de dar o seu apoio público a António Costa. Objetivo, derrotar o partido onde militou 40 anos.

Porque decidiu votar no PS e dar o seu apoio público a António Costa?
A questão essencial não é o voto pela negativa, nem é o voto útil. Mas isso está presente na minha atitude Como é público e notório, desde há três anos a esta parte, nos meus comentários e no que escrevi, entrei em rota de colisão frontal com, não só o partido, que se tornou num conjunto de oligarquias, como com o Governo, que assumiu uma política que eu considero desastrosa. Portanto, o meu grande objectivo é, em primeiro, lugar derrotar aquele que foi o meu partido, hoje que sou completamente independente, nas próximas eleições.
E de facto, a única maneira de o derrotar não é abstendo-me, nem votando em branco, nem votando nos pequenos partidos – onde de resto não há nenhum que me encha as medidas, por enquanto. Admito, por exemplo, ter alguma simpatia pelo Nós Cidadãos, mas por enquanto não existe –, a maneira de o derrotar só existe uma, é votar no Partido Socialista (PS).

Esse movimento é congénere ao espanhol, de centro-direita e liberal?
Sim, embora não tenha ainda liderança carismática. Não se tem ainda a certeza do que vai ser.
Portanto, primeiro ponto, a maneira de derrotar o PSD é votar no Partido Socialista, que é o único partido que tem possibilidade de ganhar as eleições em alternativa à actual maioria.
Em segundo ponto, de facto há aqui uma questão de fundo. A estratégia, e é essa a razão fundamental do meu voto, a estratégia do PS consubstanciada num conjunto de documentos discutidos publicamente, avalizados por economistas independentes com critérios internacionalmente aceites e finalmente aprovados na última Convenção, é uma estratégia e um programa que merecem a minha concordância na generalidade.
Por outro lado, há a questão pessoal. Não bastaria gostar do programa para votar, não bastaria querer derrotar o PSD, tinha de ter minimamente confiança na pessoa que lidera este debate. E de facto, fundamentalmente nestes dez anos em que estive na presidência da Câmara de Cascais, conheci mais de perto o António Costa como político, como pessoa, e reconheço-lhe qualidades pessoais e políticas para merecerem a minha confiança.

Mas porque não votou só PS sem tornar isso público?
Porque tenho responsabilidades públicas. E fui solicitado nesse sentido. Não fui solicitado para declarar o meu apoio. António Costa limitou-se a convidar-me para ir à Convenção. Mas eu achei que era a minha obrigação pública, embora soubesse que iria cair sobre mim um ónus enorme, porque as pessoas acham que isto é Benfica-Sporting. Não é. Eu sou independente, eu fui expulso do PSD.

Já faz mais de um ano. Mas, quais as medidas do programa eleitoral do PS com que mais concorda?
Mais uma vez, embora não goste de encarar as coisas pela negativa, o PSD encarou de forma exagerada a salvação do País aquando do acordo com a Troika. Eu tenho que reconhecer e fui o primeiro que reconheci, sempre reconheci que era preciso austeridade, que o Pedro Passos Coelho evitou que caíssemos no abismo, e tenho a plena noção que o responsável fundamental, eram os governos anteriores, mas de uma forma mais decisiva o governo do engenheiro Sócrates, e ele de facto tinha de implementar uma política, digamos, de contracção da despesa, de austeridade. O grande problema é que foi muito para além da Troika. E ao destruir o poder de compra e ao destruir o tecido produtivo português arruinou a economia, levou a que a pobreza tivesse aumentado e atingido níveis do princípio do século, a distância entre mais ricos e mais pobres se tivesse acentuado e aquilo que era essencial que era conseguir limitar e diminuir o endividamento, não. Não só não conseguiu isso como conseguiu o contrário, o endividamento agravou-se. Se há alguns sinais positivos, sim há, embora o desemprego continue em níveis elevadíssimos, grande parte do mérito desses sinais positivos não resultam da acção governativa, mas sim de circunstâncias a que ele é alheio.

Quais?
Desde as iniciativas da Comissão e do Banco Central Europeu, à desvalorização do euro, à descida do preço do petróleo, etc. Esta é a razão fundamental. E o que é o que PS faz? Apresenta uma estratégia alternativa, em vez de ir pelo lado das empresas e de uma forma cega, como pretende a maioria – porque a maioria, no fundo, o que quer é mais do mesmo, o próprio Pedro Passos Coelho disse não se surpreendam com o meu programa porque isto vai ser, não disse mas estava implícito, a continuação do Governo antecedente. O que o Costa diz – de uma forma que eu reconheço que tem alguns riscos –, que aposta fundamentalmente num choque na economia através do aumento do poder de compra dos portugueses, do alívio da austeridade sobre os contribuintes. É esse conjunto de medidas que considero claramente positivo. Depois tendo sempre sido social-democrata e tendo sempre sido à esquerda no PSD, sou mais sensível às políticas de natureza social do António Costa, nomeadamente no combate à pobreza, na educação – no 12º ano de escolaridade, um combate sério ao abandono escolar –, na defesa intransigente do Serviço Nacional de Saúde e uma outra opção que para mim é muito sensível que é a cultura e o património, que foram completamente desprezadas desde a extinção do Ministério da Cultura, que não é determinante mas que traduziu esse desprezo em termos orçamentais e em termos concretos da sensibilidade deste primeiro-ministro para a cultura.

Não falou numa das medidas que é a que mais rendimento disponível vai dar aos contribuintes que é a descida da TSU.
Falei, em termos gerais. Agora vamos aos aspectos particulares. Essa é uma das medidas que está englobada na estratégia de reforçar o poder de compra dos portugueses. A descida da TSU é de facto a medida mais polémica deste programa, como aliás se viu na Convenção pela voz da presidente da Associação Portuguesa dos Reformados, militante do PS, e eu próprio me sobressaltei quando vi a medida, porque de facto temos de ser todos defensores do reforço da estrutura, da capacidade da Segurança Social acorrer às necessidades presentes e futuras. Agora, o que não há dúvida é que para reforçar o poder de compra de metade dos portugueses não é através do IRS que podemos lá ir, porque metade dos portugueses não paga IRS. Têm ordenados tão baixos que estão isentos, através da TSU ele consegue isso. É uma medida arriscada sem dúvida.
E é um risco avaliado em mais de 10 mil milhões de euros.
Não acredito nesses números.

Esses números estão no estudo dos economistas do Partido Socialista.
De qualquer maneira, o PS aponta para receitas alternativas em várias áreas, várias novidades desde contribuição nova das grandes heranças, o que me parece perfeitamente normal e justo, as empresas que têm uma grande rotação passam a pagar mais, enfim, tem um conjunto de medidas. Se não chegar temos o Orçamento do Estado. Também não é dramático que isso aconteça, na justa medida em que há muitas pensões que não foram contributivas, por isso é normal.

Mas o acesso ao Orçamento do Estado significa impostos e perda de poder de compra.
Não, não. Significa diminuição de outras despesas, não necessariamente impostos. Eu sou o primeiro a reconhecer que é uma medida arriscada, mas de facto se o grande objectivo é, como pretendem os 12 economistas, um choque sério no alargamento do poder de compra dos portugueses a fim de reanimar a economia e aliviar a situação das famílias, e combater a pobreza e a diferença entre ricos e pobres, esse é o caminho.

Pode dizer-se que a sua intervenção significa que quer uma nova sociedade para Portugal ou uma sociedade social-democrata como sempre defendeu?
Sempre fui um grande defensor da social-democracia, numa perspectiva, que naqueles tempos existia na Suécia, que deslumbrou uma grande parte da nossa juventude, entre os quais eu, que não embarcaram nas políticas marxistas, nas posições mais radicais de esquerda. Sem dúvida que isso aconteceu.
Hoje em dia acontece que, de facto, em contraponto a esta política supostamente social-democrata, mas na verdade neoliberal, conservadora e retrógrada deste Governo, contraponho uma política com o Partido Socialista, sem romper com os compromissos europeus – isso é um ponto muito importante para mim –, sem romper os compromissos europeus pretende inverter essa situação.
Não pretendo uma nova sociedade, pretendo é uma nova estratégia que fundamentalmente proporcione um crescimento económico sustentado que permita combater o desemprego seriamente – que é uma coisa de loucura –, que consiga não apenas travar a emigração dos nossos valores mas consiga que eles possam regressar em número significativo ao nosso país e que o fosso entre ricos e pobres que atingiu foros absolutamente de escândalo seja progressivamente atenuado. Se isto é uma sociedade diferente, defendo-a.

A social-democracia é defendida pelo actual PS?
Se há algum partido no nosso país que sempre se situou na área do socialismo democrático, que do ponto de vista estritamente ideológico é sinónimo de social-democracia, o PS obviamente que sim.

Os dois Governos de José Sócrates, do qual António Costa foi número dois, foram sociais-democratas?
Foram fundamentalmente governos que cometeram erros crassos. Nomeadamente quando de uma forma imprudente, para não dizer aventureira, expandiu a despesa de uma forma disparatada. Apanhou uma crise e a partir daí não tinha o resguardo, não tinha o respaldo, não tinha meios de enfrentar a crise e ficámos perto da bancarrota. Agora, nalgumas medidas, seja nas áreas sociais, o governo – pese embora eu tenha adversário figadal desse Governo, nomeadamente como presidente da Câmara de Cascais, em que fui tratado por alguns ministros de uma forma…
Por exemplo, pelo Correia de Campos, na saúde, fui tratado principescamente, principescamente no sentido de bem, o Hospital de Cascais é exemplo disso. A senhora que tinha o Simplex também.

Mudando de assunto, aquilo que está a acontecer na Grécia não pode ser um exemplo para nós daquilo que não se deve fazer?
Claro que sim, mas nós nunca fizemos nada…

Desculpe interrompe-lo, mas está-se sempre a falar da expansão do consumo que está no programa do PS.
Sim, mas devidamente controlado. E o problema da Grécia não é de agora, vem de trás. Digamos que as liberalidades da Grécia e o antecedente que permitiu chegar a esta situação caótica… a responsabilidade dos partidos do arco da governação grega, o Pasok e a Nova Democracia, não tem nada a ver com as malfeitorias ou as imprudências de governos portugueses, que fizeram asneira em auto-estradas, em grandes inaugurações, em aumentos de função pública, em futebóis, mas que não tem comparação com o disparate completo que se fez na Grécia. O problema da Syrisa é que pensou que isto era mais fácil do que na realidade é e está-lhe a sair cara a situação. Vamos ver qual é o desfecho.

Ainda voltando atrás. Fico a perceber que o seu apoio é mais a António Costa, um líder em quem confia, do que ao PS. É isso?
Eu não apoio o PS. Para apoiar o António Costa e o programa do PS tenho e devo votar no PS e é isso que farei. Não me vou inscrever no PS, não quero perder a minha independência, até admito como hipótese remota regressar ao PSD – se for regenerado, obviamente, este PSD não me interessa nada. Nem eles me querem. Da minha experiência de vida, o líder é uma pedra essencial e ou nos merece confiança ou então vale a pena apostar naquilo.

Estou a falar nisto porque criticou a parte dos estádios de futebol, do Governo Guterres, depois critica os governos de Sócrates, do qual Costa era o número dois. Então tem mesmo crença no líder, não é no partido?
Sem dúvida nenhuma. Eu não tenho rigorosamente nada a ver com o partido, embora considere que o António Costa tem todas as condições de, ganhando as eleições, de fazer uma equipa à sua imagem e semelhança, não repescando as pessoas que… ou melhor, ir buscando as pessoas que ele considera capazes de aplicar aquele programa.

Admite liderar um novo partido?
Não, não tenho idade para isso. Nem idade nem paciência, de maneira nenhuma. Tenho 70 anos, estou reformadíssimo, chegaram os netos agora, que é uma coisa fantástica, deslumbrante, mas que dá um trabalhão. Agora tenho uma com escarlatina e outro com otites, de maneira que estão por minha conta três vezes por semana.

Voltando ao programa do PS, acha que tem capacidade para melhorar a competitividade e ao mesmo tempo combater o flagelo do desemprego?
Eu acho que tem. As medidas apresentadas conduzem e apontam nesse sentido. É claro que só a experiência – e eu não sou favorável a experimentalismos –, mas só a experiência dirá se vai vingar ou não. Mas, não há dúvida nenhuma que há que tirar o chapéu a António Costa, por variadíssimas razões, mas neste caso por ter agarrado não no programa, como fez a maioria, que só para antecipar-se à Convenção Socialista resolveu apresentar o que diz ser compromissos mas que de facto são promessas, o António Costa em primeiro lugar fez a projecção daquilo que deve ser o país para a década, discutiu isso na base e esse documento foi aprovado. Depois foi buscar 12 economistas que têm manifestamente credibilidade nos meios académicos, não têm nenhuma ligação…

De base política?
Não. Pode haver um ou outro próximo do Partido Socialista e até há, mas na verdade são pessoas que actuaram independentemente. Eu até estava convencido de que iria ser um programa ainda mais à esquerda, que não fosse tão claro, por exemplo, na garantia de manter os compromissos internacionais, de honrar os compromissos do país. Era o que faltava que não o fizesse, mas é muito explícita a forma como o faz. E esses economistas puseram à discussão pública o documento, houve todo um debate que ocorreu na comunicação social sobre essa matéria, pôs os órgãos do partido a discutir e aprovou finalmente numa convenção. É um programa que tem esse mérito e portanto tem pés para andar. Vamos ver, agora a experiência o dirá. Ao contrário, a maioria primeiro faz uma coligação de uma forma verdadeiramente notável.

Como assim?
Deixem-me contar esta história, porque acho isto notável. Francisco Sá Carneiro quis fazer uma coligação PSD/CDS, apresentou ao órgão próprio do partido e perdeu. Não se conformou com a derrota, pensou que as pessoas não estavam devidamente informadas e agarrou no Carlos Macedo, no Ângelo Correia, no António capucho, na Helena Roseta, na direcção nacional e disse vão explicar isso pelas bases, vão fazer debates. E andámos durante um mês junto do povo laranja a explicar o que se passava. Voltou a reunir o conselho nacional, voltou a explicar e então passou. Estes tipos o que fazem? Chegam á televisão e dizem que há uma coligação PSD/CDS e no dia seguinte vão ao conselho nacional e levam aquilo por unanimidade. Mas que raio de partidos são estes? Ao mesmo salvaguardem as aparências.

Ou as bases?
Mas não existem bases do PSD, aquilo existem sindicatos de voto bem organizados. Não se pode generalizar, há um ou outro caso em que podem estar a funcionar.

Há pouco falou em oligarquias no PSD. Quem as comanda?
Fundamentalmente, é uma geração nova, com gente com muito mérito, não discuto isso, mas gente que não tem mérito nenhum. E especialmente não tem ética na condução dos negócios partidários e dos negócios políticos.

Negócios?
Negócio no sentido da actividade política e partidária. Portanto, não olha a meios para atingir os fins, nomeadamente para obter ganho de causa nas eleições internas. Criou-se ali um corpo fechado sobre si próprio que afasta…

As bases?
Bases? Nem sequer reúne com elas. As sedes estão fechadas. As reuniões que existem são reuniões sem qualquer significado. Secções com 1.000 a 2.000 militantes chegam a fazer reuniões com 50, ou 70, cem pessoas.

Há desinteresse ou pessoas afastadas?
Primeiro são afastados, como aconteceu com pessoas com o meu historial que sou convidado para presidir 17 municípios, ofereci-me para três, aqueles que estavam na periferia de Cascais, porque aqui não me poderia candidatar, como não o posso fazer em 2017, não quiseram aproveitar e ofereci-me para a Junta de Freguesia do Estoril. Não quiseram porque já a tinham dado ao CDS. E eu perguntei se não podiam renegociar isso. Eu a única coisa que queria, estando reformado, sinceramente não era o ordenado de presidente de junta de freguesia. Felizmente a minha reforma é um bocadinho melhor que isso. Não é brilhante, foi cortada em quase um terço, mas pronto, era para estar entretido e porque gosto muito da minha terra. Vivo aqui desde que nasci. Agora é que vim para Cascais. Vivi toda a vida em São João do Estoril. O meu pai nasceu lá, eu vivi na casa em que ele nasceu e depois atravessei rua para casar e morei nessa casa até ao ano passado. Este ano é que vim aqui para Alvide. Portanto, não estavam interessados, pura e simplesmente quiseram-se ver livre de mim porque não somos vozes cómodas.
Por outro lado, quando eu pergunto a alguém se sabem que há eleições no PSD… não tenho vida nem paciência para isso. Aquilo está feito. Entram as pessoas e já se percebe que aquilo não tem nada a ver com o PSD, são pessoas que foram arrebanhadas. Não estou a falar de Cascais, estou a falar em termos genéricos. Há secções que ainda funcionam muito bem, algumas dessas que me convidaram para encabeçar a lista, desde o Seixal a Portimão, na margem Sul, e outras, que não importa agora precisar. À última hora vieram ter comigo e o partido disse-me, não fique chateado, porque aqui não pode ser o presidente da Junta de Freguesia Cascais-Estoril, que juntaram, porque já cedemos, mas temos a presidência da assembleia municipal de Loures. Primeiro, o PSD ganhar Loures é a mesma coisa que o Costa da Caparica ganhar ao Barcelona. E o que é que eu ia fazer para a assembleia municipal e o que é que eu tenho a ver com Loures?

Acha que essa forma de fazer as listas se passa só no PSD ou é geral aos outros partidos?
Não conheço a actividade interna do PS, mas pelo menos a prática para a aprovação de documentos revelou ser profundamente democrática, muito mais participada, com muito mais luta. Não tem comparação possível. Agora os partidos de esquerda é que têm outra tradição. E o Partido Comunista então, vê-se que prepara as coisas – digo eu que sou neste momento membro da assembleia municipal de Sintra –, prepara as coisas com algum cuidado e com antecedência.

A social-democracia que defende, como a do Norte da Europa, era fácil de implementar em Portugal com os baixos ordenados que temos?
A social-democracia tem que manter como prioridades fundamentais no nosso país o sistema de educação, a saúde, outro aspecto que o Partido Socialista tratou muitíssimo bem no Governo Sócrates, foi a área da ciência e tecnologia, com Mariano gago, há que dizê-lo, mas depois também nas políticas sociais. E estas só se conseguem através da redistribuição e a redistribuição só se consegue através de uma gestão parcimoniosa do Orçamento e com impostos mais progressivos e mais justos.

Estava a fazer esta pergunta ainda a pensar na Segurança Social. As projecções que temos apontam para chegarmos rapidamente a uma relação de um trabalhador por cada reformado. Assim, temos salários suficientes para essas políticas sociais todas?
Neste momento manifestamente não. Se conseguirmos crescer a um nível satisfatório, pôr mais pessoas a descontar para a Segurança Social, ou seja, combater o desemprego e trazer imigrantes novamente para Portugal e dando-lhes ocupação, essas projecções podem ser alteradas completamente. As projecções, naturalmente, em níveis de desemprego que são totalmente insatisfatórias.

Essa é uma das propostas que vem no programa do PS, que é criar um kit de boas vindas do imigrante. Temos uma taxa de desemprego de 13%, a política de natalidade mesmo forte só terá efeito em mais de três legislaturas. Vamos ter de apostar a médio prazo em trazer pessoas para cá?
No regresso dos emigrantes portugueses, com certeza que sim. E julgo que se tiverem uma expectativa de ocupação, mesmo que não paga aos níveis que a Europa está a pagar, tendo família cá, tendo a sua terra cá, normalmente as pessoas preferem trabalhar no seu país; com muitos não acontecerá isso, mas poderá ser um movimento apelativo.
Depois obviamente que imigrantes de outros países, como os dos países lusófonos, que podem ser uteis, por exemplo, se houver uma dinamização do mercado de recuperação dos centros históricos, que estão num estado absolutamente caótico. Na redinamização do imobiliário, não na construção de nova habitação que não é precisa, nova, mas na reabilitação da habitação antiga. Aí podemos trazer para o país pessoas que já têm experiência na construção civil mas que se afastaram por falta de emprego. Se as políticas de dinamização da economia vingarem, o problema da Segurança Social vai-se progressivamente atenuando.

Ao fim de pouco mais de um ano de ter sido expulso do PSD, com que líder voltaria ao partido?
Neste momento, pelas características pessoais e pela experiência anterior, voltaria ao PSD com o Rui Rio. E também pelo carisma que tem junto dos militantes. E se fizer esta consulta junto dos militantes certamente que obtém esta resposta, em termos alternativos. Suponho, ou espero, que ninguém responda Marco António Costa e responda principalmente Rui Rio, com todo o respeito que me merece o Marco António Costa. Mas, enfim, é uma pessoa que seguiria as pisadas do Pedro Passos Coelho.
Não sei se Rui Rio está disponível, mas se ele voltar e conseguir regenerar o partido, muito bem. Mas há outros militantes que também qualidade e experiência como a Manuela Ferreira Leite.

Falou de um potencial candidato à Presidência da República. Já tem um nome para apoiar?
Não, não tenho. Primeiro porque não conhecemos o leque dos candidatos.

Já se conhecem alguns dos potenciais.
Mas os potenciais são potenciais na opinião pública, não são potenciais na sua decisão. Tenho as maiores dúvidas que o Marcelo queira ser candidato, tenho as maiores dúvidas que o Rui Rio queira ser candidato, apesar das notícias que aí chegaram, porque julgo que ele tem muito melhor perfil para liderar funções executivas e mesmo liderar o partido do governo.
E entendo que ele só poderá regressar aos comandos do partido se não for candidato à Presidência da República. E mesmo que o seja, não está demonstrado que possa ganhar as eleições presidenciais, porque a maioria sociológica é de esquerda. E temo que para combater essa maioria sociológica com um candidato de centro e centro direita, o único que tem notoriedade e eventualmente prestigio para isso, embora ainda não conheça as sondagens, é o Marcelo. Não acredito que outros consigam isso.
Portanto, a dúvida é muito metafísica na medida em que não faço a mínima ideia se o Rui Rio avança ou não, não faço a mínima ideia se o Marcelo deixa a vida que tem, que é muito interessante, como professor, como comentador, com a liberdade que tem, para a Presidência da República. Por ventura, pode até sacrificar a satisfação pessoal que tem com o trabalho que hoje desenvolve nos seus vários ramos e assumir o encargo de candidatar-se à Presidência da República. Mas também temos uma grande incógnita à esquerda, porque sabemos que o candidato que avançou e que tem mais perspectivas de vir a ser o candidato que agrega a esquerda, o Sampaio da Nóvoa, não é consensual dentro do PS, não sei se há meios socialistas que não pretendem avançar com outro candidato alternativo a este. O Partido Socialista ainda não se decidiu. Sinceramente eu também não.

Em Rui Rio já percebemos que votaria para Presidente. E no Marcelo?
Consigo votar no Rui Rio, consigo, mas consigo votar se não entender que não há uma solução melhor para o país. Para mim era muito doloroso, o Rui Rio foi meu vice-presidente do grupo parlamentar, conheço-o lindamente, é um tipo com qualidades absolutamente fabulosas. E no Marcelo também, eu conseguiria votar no Marcelo, não tenho problema nenhum.
No Pedro Santana Lopes é que acho – embora também me mereça a maior consideração e estima pessoal –, esse é que acho que manifestamente não tem perfil para Presidente da República.

E Durão Barroso?
O Durão Barroso tem perfil, mas é uma aposta completamente errada, para já é completamente errada, ele é muito novo, tem uma experiência excelente, nomeadamente por ter sido presidente da Comissão, mas não apenas isso, foi ministro dos Negócios Estrangeiros. O que eu acho é que ele ainda tem uma notoriedade muito boa, mas o prestígio dele ficou muito abalado com a sua ida para a Comissão. E ainda hoje parece-me que esse prestígio está bastante abalado. E eu digo isto à vontade porque fui dos poucos que, apesar de tudo, defendi a ida dele para a Comissão.
Quando a questão se colocou, recordo-me perfeitamente que o Mário Crespo me perguntou e admirou-se da minha posição e eu disse, não, sei exactamente qual é a importância de ter um português na Comissão e portanto o PSD que invente outro primeiro-ministro. Não é uma solução muito ortodoxa, mas defendi a ida dele para a Comissão. Ele tem perfil, mas acho que é um disparate e ele está fora da corrida.

Dos candidatos que já temos à esquerda, Sampaio da Nóvoa e Henrique Neto, votaria em algum deles?
Eu estou muito aberto ainda. Gosto dos dois. O problema que tem o Henrique Neto, ele que não me leve a mal, mas acho que já está numa idade um bocadinho avançada para se candidatar á Presidência da República. Embora o considere um homem com enorme qualidade, uma pessoa no plano pessoal e político com enorme qualidade, não me parece que seja um candidato que possa merecer o meu apoio.
O Sampaio da Nóvoa sim, porque tem uma trajectória fora da política, mas uma trajectória riquíssima em termos académicos e pelo que conheço dos textos dele é uma pessoa com uma solidez ideológica muito forte, embora possa estar colocado um pouco á esquerda das minhas perspectivas, mas não me assusta nada com isso. Eu deixo isso em aberto, verei qual é o naipe de candidatos que se apresentam e decidirei em conformidade.

Portanto, apoia o PS, António Costa, mas nas presidências vota à direita.
Não sei se voto à direita, não sei se voto à direita ou se voto à esquerda, depende do candidato. Imagine que o PS apresenta um candidato ao centro de quem eu possa gostar muito e que o Marcelo e o Rui Rio não se apresentam. Aí não tenho qualquer dúvida, se eu gostar muito desse candidato mais ao centro…

Que figura ao centro poderia ser essa, proposta pelo Partido Socialista?
Uma pessoa por exemplo como o professor Guilherme Oliveira Martins.

Porquê?
É uma pessoa manifestamente do centro do espectro político, entre o PSD e o PS, tem uma experiência riquíssima no Governo, tem uma experiência riquíssima no Tribunal de Contas e especialmente é um homem de cultura, aliás ele é presidente do centro nacional de Cultura. E é uma pessoa com qualidades morais, éticas e pessoais muito significativas. Mas não faço a mínima ideia de qual é a disponibilidade dele.

Carlos Caldeira e Vítor Norinha

Foto: Armindo Cardoso


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