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Pedro Siza Vieira defende importância do mar para Portugal crescer sustentadamente acima da UE

O ministro da Economia explicou que, em 2000, sucederam três acontecimentos “que, no seu conjunto, foram altamente negativos para a produtividade do país”. O ministro defendeu também que agora é o tempo do crescimento económico e que esse está ligado à economia azul.
24 Janeiro 2022, 18h48

O Ministério da Economia e da Transição Digital encerrou a sessão de lançamento do “Indico Blue Fund”, da Indico Capital Partner, que decorreu nas instalações da sociedade de advogados Cuatrecasas.

No seu discurso o ministro defendeu que agora é o tempo do crescimento económico e que esse está ligado mar, “em modelos diferentes dos tradicionais [que se focavam na parte extrativa e transportadora do mar]”.

“Se olharmos para a próxima década a ambição coletiva deverá ser a de o país ter anos sucessivos de crescimento económico sustentável que nos aproxime da União Europeia. O que só se poderá fazer através do crescimento significativo da produtividade como um todo e que há de vir, seguramente, da capacidade que tivermos de utilizar duas coisas que o país conquistou nas últimas décadas e converte-las em valor para o mercado”, defendeu Siza Vieira referindo-se à “elevadíssima qualificação dos nossos Recursos Humanos” e “ao Investimento na capacidade científica e tecnológica”.

“A grande diferença que temos hoje face há 40 anos ou mesmo há 20 anos é a capacidade que tivemos de educar a nossa população. Hoje em dia os jovens com menos de 35 anos já têm níveis de qualificação semelhantes à média da União Europeia e com algumas áreas óbvias de excelência, como a engenharia, a saúde ou as ciências da vida, onde os nossos graduados e pós-graduados estão absolutamente capacitados em qualquer parte do mundo ao mais alto nível”, disse Siza Vieira.

A segunda vertente importante para este “novo modelo da economia portuguesa é o investimento que fizemos na nossa capacidade científica e tecnológica”, disse ainda o ministro lembrando a importância de Mariano Gago neste campo, porque conseguiu “consolidar um sistema científico e tecnológico que hoje em dia é a base da projeção da nossa atividade económica no mundo”, referiu, lembrando “a excelência da engenharia portuguesa”.

“Estas duas condições de base (de que o país pode agora beneficiar) explicam muito do que a economia portuguesa, nos últimos anos, foi vivendo”, disse Pedro Siza Vieira que fez também uma resenha histórica dos motivos que, na sua óptica, explicam o baixo crescimento económico do país.

“No início deste século, no ano 2000, a economia portuguesa sofreu um triplo choque com poucos meses de intervalo”, relatou o ministro da Economia.

Pedro Siza Vieira explicou que sucederam três acontecimentos “que, no seu conjunto, foram altamente negativos para a produtividade do país”. O ministro falava da adesão ao euro, da adesão da China à Organização Mundial do Comércio, e da adesão dos países de leste à União Europeia.

A adesão ao euro teve o efeito de fixar a taxa de câmbio relativamente às moedas dos outros países europeus para onde Portugal tradicionalmente exportava. “O câmbio do escudo fixou-se num momento particularmente elevado. A competitividade tradicional da nossa economia assenta na desvalorização do escudo, desapareceu”, disse.

“O segundo fator foi a adesão da China à Organização Mundial do Comércio e o acesso livre dos produtos produzidos na China ao mercado europeu. De repente aquilo que as nossas indústrias tradicionais faziam a baixos salários e baixos custos, como calçado e os têxteis, sofre a concorrência das mesmas produções, a muito mais baixo custo, desse grande gigante que é a China”, explicou.

O terceiro choque adveio da adesão dos países de leste à União Europeia, em 2004.  Sendo “mercados com maior proximidade aos países mais desenvolvidos da UE e com grandes semelhanças culturais, começaram a captar investimento estrangeiro de grande dimensão desses países, em particular da Alemanha”, disse Siza Vieira.

“A perda de competitividade traduziu-se em défices cada vez maiores e em endividamento cada vez maior perante o exterior para financiarmos as importações cada vez maiores”, disse Siza Vieira que reconhece que o país “colapsou algures no final da primeira década deste século” (referindo-se ao período do resgate do país pela troika) e a partir daí “tivémos momentos em que estávamos abaixo da riqueza criada em Portugal em 2000”, referiu.

A partir de 2015 e 2016, depois de Portugal ter feito a saída limpa do programa de resgate, “as coisas começaram a mudar e começamos a aprender a viver neste novo contexto e a utilizar da melhor maneira os recursos qualificados e a capacidade de inovação”.

O ministro frisa que nas duas legislaturas do Governo socialista de que faz parte, e até 2019 “a economia cresce sustentadamente e acima da média europeia”.

“O processo de crescimento sustentado da economia portuguesa nos próximos anos há de ser capaz de se construir em cima daquilo que de melhor se foi fazendo nos últimos anos”, defendeu Siza que prevê uma “realocação mais rápida e eficaz de recursos que ainda estão muito envolvidos em empresas de baixa produtividade, para setores mais elevados em termos de produtividade”.

Siza Vieira considera que esta realocação nalguns setores já se está a fazer e noutros ainda não, mas “o movimento vai ser muito rápido nos próximos tempos”. Um deles, disse, é o da Economia Azul.

“É uma oportunidade de mercado a necessidade de encontrarmos novos materiais para utilizações produtivas que hoje em dia dependem essencialmente de plásticos; é a capacidade de aproveitarmos aquilo que é a riqueza e diversidade dos nossos ecossistemas para encontrarmos materiais inovadores; e a capacidade tecnológica dos nossos cientistas e dos investidores que permitam transformar estas oportunidades em valor para o mercado”, disse o ministro.

Pedro Siza Vieira diz que, enquanto ministro, se preocupou “em assegurar um ecossistema de investidores privados que pudessem aproveitar melhor estas oportunidades”. Mas também em mobilizar “numa dimensão inédita” recursos públicos para acompanhar o investimento privado nestas áreas.

O ministro disse que, no âmbito do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), Portugal “tem o único programa da UE que mobiliza recursos europeus, numa dimensão significativa, para a capitalização de empresas e que aposta no trabalho com as empresas de capital de risco para a alavancagem de capital privado em novos setores mais dinâmicos”. Por isso, “este fundo lançado hoje é o exemplo do que precisamos mais”. A saber: “mais capital para investir em empresas nascentes que sejam capazes de aproveitar o Oceano e a partir daí criar ideias que levem para o mercado uma multiplicidade de segmentos que a economia azul pode oferecer e com isso ajudar a acelerar o crescimento da nossa economia”.

No debate anterior tinha sido mencionada a importância do PRR  na dinamização da economia com base nos oceanos.

No painel subordinado ao tema “A Oportunidade do Mar”, em que participaram Rúben Eiras, Secretário Geral do Fórum Oceano; Helena Vieira, Directora Geral da DGPM; Ricardo Torgal, General Partner Indico Capital Partners  e Vasco Bivar de Azevedo, Partner Cuatrecasas como moderador, destacou-se a convicção de que o Porto de Sines, não só vai ser o maior da Europa, como o mais digital. “O mar é um gain changer fulcral”, ouviu-se no painel.

O fundo de private equity, totalmente privado, que foi hoje lançado, é vocacionado para startups e para PME’s exportadoras e é o primeiro fundo português dedicado à economia do mar. Dos 50 milhões, 36 milhões de euros já estão realizados.

O Indico Blue Fund estará não só orientado para a inovação, exportações e para o desenvolvimento tecnológico, mas também para a sustentabilidade e vai procurar medir o impacto das empresas nos oceanos e desenvolver soluções que mitiguem os efeitos das alterações climáticas, segundo a empresa fundada por Stephan Morais, Cristina Fonseca e Ricardo Torgal.

 


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