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Chile: a esquerda de regresso ao poder

O novo presidente, Gabriel Boric, toma posse esta sexta-feira. E um dos seus planos é fazer regressar a esquerda ao primeiro plano da América Latina, onde já chegou a estar noutros enquadramentos.
11 Março 2022, 18h00

Gabriel Boric será o novo presidente do Chile a partir desta sexta-feira. Aos 36 anos, é uma nova esquerda que entrará no palácio de La Moneda – o mesmo lugar onde, em 11 de setembro de 1973, Salvador Allende perdeu a vida – mas o seu caráter internacionalista parece permanecer uma das opções do ex-dirigente estudantil.

Ao mesmo tempo que tratará de enterrar definitivamente o que resta do legado da ditadura de Augusto Pinochet, Boric pretende que, a partir do Chile, uma renovada voz da esquerda volte a ouvir-se na América Latina. As particularidades dessa esquerda latino-americana – desde logo a sua propensão para a tomada de armas como forma de intervenção política – estão em parte datadas (já ninguém imagina um punhado de barbudos com um ar sujo e romântico a passear-se de arma em punho no meio da densa floresta tropical), mas o novo presidente chileno quer renovar o compromisso com as classes mais desfavorecidas. E, na América Latina, como no Chile, classes desfavorecidas é coisa que não falta.

Mas, antes disso, o mundo real: questões básicas como a educação e a saúde, mas também as desigualdades e o geral empobrecimento suscitado (também) pela pandemia estão no topo da sua agenda política. Paralelamente, Boric quer reintroduzir o Chile no lugar de liderança que, no sub-continente, já foi o seu – e que a ditadura acabou por fazer desaparecer.

Mas a história está contra ele: quase invariavelmente, as propostas de esquerda – quer cheguem ou não ao poder por via de eleições – acabam por soçobrar. Normalmente por duas vias: esquecendo o caráter popular das suas promessas e caindo mais depressa ou mais devagar num autoritarismo cada vez mais próximo das autocracias; ou mantendo um registo ortodoxo na frente da economia que acaba por chocar com a realidade circundante e com as necessidades pessoais básicas.

Boric tem-se afirmado exatamente como um não-ortodoxo em termos da economia. E sabe que a economia de mercado é com certeza a melhor forma – a única forma, face à envolvente geográfica – de responder à economia social. As coligações que trás da campanha que o levou à presidência, são uma garantia (assim o espera o eleitorado) de que a cartilha marxista ficará do lado de fora do seu gabinete. Mas o novo presidente já disse, por outro lado, que é o social que ditará a condução do seu mandato.

A cerimónia de tomada de posse será em Valparaíso, cidade do litoral onde está o Congresso, mas depois disso gabriel Boric viajará para Santiago do Chile, no sopé da Cordilheira dos Andes, e à noite assomará á varanda de La Moneda para fazer o seu primeiro discurso como presidente. A capital chilena prepara-se para uma grande festa.


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