O Banco de Portugal publica hoje as estatísticas da balança de pagamentos atualizadas para dezembro de 2022. Sendo que os destaques vão para a necessidade de financiamento de 1,1 mil milhões de euros em 2022 (0,5% do PIB) da economia portuguesa.
“Em 2022, a economia portuguesa registou um défice externo de 1,1 mil milhões de euros, o que corresponde a 0,5% do PIB. Excluindo o ano de 2020, em que se verificou um valor marginalmente negativo do saldo, a economia portuguesa já não apresentava necessidades de financiamento desde 2011”, avança o banco central.
O valor negativo do saldo em 2022 reflete, sobretudo, o saldo da balança comercial (balança de bens e serviços). No mesmo ano, a balança comercial apresentou um saldo de -2,1% do PIB, tendo o défice da balança de bens superado o excedente registado na balança de serviços.
Em 2022, as importações de bens e serviços superaram as exportações em 4,9 mil milhões de euros e o saldo da balança financeira foi de -1,0 mil milhões de euros, traduzindo um aumento dos passivos perante o exterior superior ao incremento dos ativos.
Défice da balança de bens aumentou
O Banco de Portugal revela que o défice da balança de bens aumentou 10,4 mil milhões de euros relativamente a 2021, uma vez que as importações cresceram a um ritmo superior ao das exportações (31% e 22%, respetivamente), o que resultou, em parte, da evolução dos preços verificada em 2022.
“No caso da balança de serviços, o aumento das exportações foi superior ao aumento das importações. O excedente da balança de serviços aumentou, em comparação com o ano anterior, 11 mil milhões de euros. Tanto o saldo como as exportações e as importações de serviços situaram-se acima dos valores pré-pandemia, sendo os mais elevados de toda a série”, diz o BdP.
Nas exportações de serviços “destacaram-se as viagens e turismo, os serviços de transportes e os outros serviços fornecidos por empresas. Estes serviços apresentaram taxas de variação homólogas de 110%, 57% e 23%, respetivamente”, segundo os mesmos dados.
À semelhança das exportações, nas importações de serviços, destacaram-se os serviços de transportes, as viagens e turismo e os outros serviços fornecidos por empresas. Estas rubricas cresceram em termos homólogos, respetivamente, 53%, 55% e 15%, revela o BdP.
Também em 2022, o saldo da rubrica de viagens e turismo aumentou 9,1 mil milhões de euros relativamente ao período homólogo, segundo a nota do BdP. As exportações e as importações de viagens e turismo superaram as registadas antes da pandemia, sendo que “as exportações corresponderam a 115% e as importações a 108% dos valores observados em 2019, tendo sido as mais elevadas de toda a série”.
A título de curiosidade os turistas residentes no Reino Unido, em França e em Espanha continuaram a ser os responsáveis pelas maiores receitas turísticas de Portugal.
Défice da balança de rendimento primário cresce
O Banco de Portugal revela ainda o défice da balança de rendimento primário que aumentou 1,8 mil milhões de euros, devido, essencialmente, à evolução dos rendimentos de investimento (cujo défice cresceu 1,9 mil milhões de euros). “Para esta evolução contribuiu, essencialmente, o aumento de pagamentos líquidos de rendimentos de instrumentos de capital, nomeadamente sob a forma de dividendos”, refere o banco central.
A menor atribuição de fundos europeus aos beneficiários finais determinou a redução do excedente da balança de rendimento secundário em 350 milhões de euros relativamente a 2021, constata o BdP.
“O saldo das remessas de emigrantes/imigrantes manteve-se a rubrica que mais contribuiu para aquele excedente, continuando os emigrantes residentes em França, na Suíça e no Reino Unido a ser responsáveis por mais de metade das remessas recebidas pelas famílias portuguesas”, revela a análise.
Os dados do BdP constatam ainda uma “acentuada redução do excedente da balança de capital em relação a 2021, de 1,6 mil milhões de euros”, que se deveu, principalmente, ao recebimento excecional, em julho de 2021, da devolução da margem financeira relacionada com o Programa de Assistência Económica e Financeira (PAEF).
“A diminuição do saldo de aquisição/cessão de ativos não produzidos não financeiros refletiu, sobretudo, o aumento da compra de licenças de carbono”, diz o estudo.
Por outro lado, o saldo de transferências com a União Europeia reduziu-se 1,1 mil milhões de euros relativamente a 2021 em resultado, essencialmente, da menor atribuição de fundos comunitários. Destacou-se a diminuição de fundos comunitários atribuídos associados ao programa FEDER, de 1,6 mil milhões de euros, após o máximo registado em 2021.
Adicionalmente, a contribuição financeira paga por Portugal para a União Europeia diminuiu 249 milhões de euros.
Saldo da balança financeira foi negativo
Em 2022, o saldo da balança financeira foi de -1,0 mil milhões de euros, resultante de um aumento dos passivos perante o exterior (13,6 mil milhões de euros) superior ao incremento dos ativos (12,6 mil milhões de euros), avança o BdP.
O setor institucional que mais contribuiu para o aumento dos ativos foi o das outras instituições financeiras monetárias, com um crescimento de 6,6 mil milhões de euros, atribuível aos investimentos em títulos de dívida de longo prazo emitidos por não residentes, e ao aumento dos depósitos no exterior.
Segue-se o banco central, com um aumento de 2,1 mil milhões de euros, as instituições financeiras não monetárias exceto sociedades de seguros e fundos de pensões (1,4 mil milhões de euros) e as sociedades não financeiras (1,1 mil milhões de euros).
Do lado dos passivos, os setores com os maiores aumentos foram as sociedades não financeiras, com um aumento de 12,1 mil milhões de euros, justificado, essencialmente, pelo investimento direto do exterior em Portugal, principalmente investimento imobiliário e em dívida titulada; as outras instituições financeiras monetárias, com um crescimento de 7,7 mil milhões de euros, devido, sobretudo, ao aumento dos depósitos de não residentes junto de bancos nacionais; e as instituições financeiras não monetárias exceto sociedades de seguros e fundos de pensões, com um incremento de 3,1 mil milhões de euros, relacionado com o investimento de não residentes em títulos de dívida e em unidades de participação em fundos emitidos por entidades residentes.
“O banco central, por sua vez, registou uma redução de passivos de 9,3 mil milhões de euros, sobretudo em responsabilidades relacionadas com contas TARGET”, diz o BdP.
Ainda segundo a mesma nota, em 2022, o banco central apresentou a maior variação positiva dos ativos externos líquidos (11,4 mil milhões de euros), contrariamente ao verificado em 2021 e 2020.
Já o setor das sociedades não financeiras foi aquele que registou a maior redução (-11,0 mil milhões de euros). Os ativos líquidos das administrações públicas aumentaram 0,5 mil milhões de euros, depois de, em 2021, terem apresentado um incremento de 11,6 mil milhões de euros, revela o BdP.
A categoria funcional que mais contribuiu para o saldo negativo da balança financeira foi o investimento direto (-4,9 mil milhões de euros), que tem apresentado aumentos de ativos inferiores aos aumentos de passivos desde 2012. A categoria dos derivados financeiros registou também uma redução de ativos líquidos, de 4,5 mil milhões de euros, explica o Banco de Portugal.
Em sentido contrário, o investimento de carteira (4,7 mil milhões de euros), o outro investimento (3,5 mil milhões de euros) e os ativos de reserva (0,2 mil milhões de euros) apresentaram saldos positivos, conclui.
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