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Eco-Oil vende combustível reciclado e não sobra. Indústria adota solução nacional mais sustentável

A Eco-Oil é a única empresa do mundo a produzir fuel sustentável. É portuguesa e opera a partir de Setúbal. Capaz de reduzir 99,75% das emissões poluentes, o Jornal Económico falou com Nuno Matos, diretor-geral da empresa, para perceber o que é o EcoGreen Power, o que ele promete e os planos para o futuro.
6 Março 2023, 20h13

A Eco-Oil quer mudar o paradigma do mercado com o EcoGreen Power. Que fuelóleo é este? 

Trata-se de um fuel muito singular pelo facto de ser o único certificado pelo sistema internacional ISCC Plus ao nível das emissões de CO2. Através da auditoria, foi possível comprovar que o processo de produção do EcoGreen Power emite menos 99,75% de CO2 do que o combustível alternativo de origem fóssil e produzido numa refinaria. Na prática, isto significa que estamos a contribuir para que a indústria que utiliza o nosso fuel, nas suas fábricas, reduza de forma significativa o seu impacto carbónico, já que utiliza uma fonte de energia mais sustentável.  

Ao mesmo tempo, importa referir que o EcoGreen Power contribui ativamente para a economia circular ao reintroduzir um resíduo perigoso derivado da cadeia de produção e logística da indústria petrolífera. Os resíduos provenientes das águas que recolhemos de navios-tanque para tratamento, nas instalações da Eco-Oil, ganham nova vida enquanto matéria-prima capaz de gerar energia e, assim, assumir-se como uma fonte sustentável para a indústria.

Como é que uma empresa fundada em 2001 para tratar as águas contaminadas passa para a criação de um combustível?

Enquanto empresa no sectorial industrial, temos de prestar particular atenção às transformações no mercado e exigências que nos permitam continuar a inovar com sustentabilidade e cuidado pelo ambiente. Desta forma, mantemos uma estreita relação com a Academia, que convidamos com frequência a fazer parte de estudos e teses sobre a nossa atividade.  

No seguimento dessa colaboração foi possível aprofundar o conhecimento e potencial destes resíduos, recuperados durante o processo de tratamento das águas e que eram enviados para incineração. Assim nasceu o EcoGreen Power, que pode ser comercializado como um produto final e que utiliza como matéria-prima os resíduos recuperados do processo de tratamento das águas contaminadas.  

Como resultado da colaboração bem sucedida com a Academia, o processo de produção foi melhorado e otimizado até se alcançar um fuel sustentável, que se assume como um instrumento para apoiar a transição energética da produção industrial e responder às metas de descarbonização essenciais ao planeta. 

Sendo o transporte marítimo um dos grandes causadores da poluição mundial, qual o papel da Eco-Oil na transição para um mundo mais ‘verde’ e sustentável?

Embora a nossa atuação seja ao nível da indústria, portanto, sem impacto direto no transporte marítimo, acreditamos que todos temos um papel fundamental para atingir a neutralidade carbónica. Devo referir, em complemento, que já fomos contactados por empresas petrolíferas interessadas em incorporar o EcoGreen Power no seu combustível marítimo, permitindo adicionar um factor de sustentabilidade à oferta destas companhias. Questões de natureza sobretudo logística não permitiram até ao momento concretizar essa oportunidade. 

Ainda assim, o contributo do EcoGreen Power, utilizado na produção industrial e em conjugação com outras fontes de energia alternativas e sustentáveis, é essencial para alcançar as metas de descarbonização.  

Qual o investimento total colocado na criação deste EcoGreen Power?

O EcoGreen Power é o resultado de anos de investigação e desenvolvimento, num esforço coletivo de todos os colaboradores da Eco-Oil coadjuvados pela interação com a academia, sendo esse conhecimento um património que nos permite a liderança na produção de combustível sustentável a partir de resíduos. 

O investimento tangível realizado na unidade industrial está próximo dos cinco milhões. 

Além de ser um combustível diferente, o que difere o EcoGreen Power dos combustíveis tradicionais?

Acima de tudo, a grande diferença está no compromisso com a sustentabilidade que procuramos ter no processo de criação do produto. Com as auditorias realizadas para a certificação ISCC Plus, conseguimos comprovar que o EcoGreen Power emite menos 99,75% de CO2 para a atmosfera no seu processo de produção, comparativamente à produção de um fuel fóssil em refinaria.  

Além de ter um rendimento superior, também foi verificado que as emissões poluentes são mais baixas quando utilizado nos complexos industriais, contribuindo por isso para a eficiência energética e menor impacto ambiental.  

Este é um fuel produzido a partir de resíduos que, sem este aproveitamento, seriam desperdiçados, terminando mais cedo o seu ciclo de vida e reduzindo o seu valor. Através da recuperação e transformação, conseguimos reintroduzir estes resíduos como matéria-prima na geração eficaz, eficiente e sustentável de energia para a indústria. 

Como é que se cria um combustível 100% reciclado?

As águas contaminadas dos navios-tanque contêm hidrocarbonetos que ficam no fundo dos tanques e não são aproveitados. Falamos de gasóleo, gasolina, fuel ou crude, que ficam nestes tanques e são eliminados pela lavagem. A operação fundacional da Eco-Oil está no tratamento destas águas de lavagem, contaminadas com resíduos perigosos, que são poluentes, inflamáveis e explosivos – são ainda tóxicos para pessoas e para o ambiente.  

Com recurso a diferentes processos físico-químicos, operações unitárias de separação e destilação a Eco-Oil consegue criar um novo fuel, 100% reciclado e sustentável.  

Reciclamos 99% do que recolhemos. As águas são tratadas e libertas de qualquer elemento poluente e são devolvidas ao meio ambiente; os hidrocarbonetos são transformados num fuel sustentável; e os detritos filtrados, como lamas e areias, são encaminhados para um aterro especializado.  

Qual a capacidade de produção atual? Pretendem aumentá-la num futuro próximo?

Toda a produção atual de EcoGreen Power é escoada, não há excedentes, sobretudo porque existe uma procura crescente por parte da indústria por fontes de energia mais sustentáveis. Em termos da capacidade para tratamento das águas, estamos entre as cinco maiores empresas europeias, o que, olhando para a enorme dimensão de portos como Hamburgo, Roterdão, Antuérpia e Amsterdão, permite perceber a importância da unidade da Eco-Oil. Ao nível do processamento de resíduos, temos capacidade para 370 mil toneladas, contrastando com as 30 mil toneladas do nosso concorrente direto, e capacidade de produção de 35 mil toneladas de EcoGreen Power por ano. Portanto, mais do que produzir maiores quantidades de combustível, queremos apoiar mais as indústrias nesta transição energética e fornecer-lhes um fuel que, desde início, contribui para reduzir a sua pegada de carbono.  

Em termos ambientais, qual o nível de poupança permitido por este fuelóleo?

Através dos estudos realizados pelo sistema internacional ISCC, que nos valeu o selo ISCC Plus, foi possível verificar que o processo de produção do EcoGreen Power emite menos 99,75% de CO2 do que um fuel fóssil em refinaria, classificando-o por isso enquanto fuel sustentável. Pelo processo de auditoria realizado, o EcoGreen Power é neste momento o único fuel com a certificação ISCC Plus que comprova as suas emissões. 

Mas existe outro impacto positivo no ambiente na criação deste fuel: além de reintroduzir na cadeia de valor um resíduo que seria desperdiçado, a sua recolha nas nossas instalações permite evitar o descarte incorreto e altamente poluente em alto mar.  

Qual o nível de rendimento do vosso produto em comparação com um combustível dito normal?

Segundo estudos independentes realizados nas instalações fabris dos clientes e a pedido destes, foi possível comprovar que o uso de EcoGreen Power tem um rendimento até quatro por cento superior ao fuel de refinaria. Ao mesmo tempo, foi registada uma emissão 90% menor de dióxidos de enxofre e azoto, reforçando o papel deste fuel na redução do impacto poluente da indústria. 

Este combustível pode ser uma solução para a descarbonização do país?

Em termos da produção industrial, acreditamos que podemos contribuir para essa descarbonização, uma vez que o nosso fuel reduz de forma exponencial a emissão de gases poluentes e estamos a desempenhar um papel relevante para diminuir todo o impacto carbónico na cadeia de valor de um produto industrial.  

É preciso olhar para o compromisso com a sustentabilidade como algo possível através de um mix energético, num cenário onde diferentes energias sustentáveis e renováveis se conjugam para conseguir dar resposta de forma mais acessível, eficaz e imediata à neutralidade carbónica de diferentes sectores. Não existe uma solução “one size fits all” e o EcoGreen Power vem precisamente reforçar o leque de opções disponíveis para que, à medida da nossa operação, consigamos contribuir para esta missão de descarbonização. 

Qual o vosso nível de produção? Querem aumentá-lo no futuro?

Queremos, acima de tudo, apoiar a transição energética da indústria e continuar a ter um processo sustentável para o ambiente. Todo o fuel que produzimos tem mercado para venda, mas acreditamos que, com a capacidade de produção que temos, há potencial para expandir este leque de clientes, sobretudo olhando para o compromisso crescente que a indústria deve assumir com as metas ambientais. 

Que empresas nacionais e internacionais utilizam o vosso combustível?

O nosso fuel é utilizado em diferentes instalações industriais. Podemos dar como exemplos a produção de lacticínios para o grupo francês Bel, com uma fábrica nos Açores, mas também a produção de papel e no sector têxtil. 

Que investimentos pendentes têm para o futuro?

Estamos focados na consolidação do EcoGreen Power como fonte sustentável para os nossos clientes na indústria, reforçando o compromisso das marcas com a sustentabilidade ambiental e o seu impacto no futuro. Os diferentes usos de combustível fóssil e seus derivados para diferentes sectores e produtos faz com que a nossa atividade continue a ganhar destaque, tanto pelo potencial energético que aproveita nos resíduos enquanto matéria-prima, como pela preservação do ambiente.  

Estamos igualmente atentos à evolução do enquadramento legal e o estímulo à circularidade. O roteiro para a neutralidade carbónica deverá enquadrar combustíveis alternativos, como o EcoGreen Power, permitindo a sua diferenciação positiva e a atribuição de vantagens reais a quem o utiliza em detrimento da opção fóssil.


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