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Roberta Metsola: “Portugal sabe bem como ultrapassar os desafios geográficos”

Num discurso na Assembleia da República, a política maltesa e presidente do Parlamento Europeu dedicou parte da sua narrativa aos jovens europeus, aos quais lançou um apelo: “A Europa pode ser melhor se agirmos em conjunto”.
JULIEN WARNAND/LUSA
16 Junho 2023, 12h19

A Presidente do Parlamento Europeu, Roberta Metsola, afirmou esta manhã, num discurso na Assembleia da República, que é premente “mostrar às pessoas os benefícios tangíveis da Europa”, num discurso marcado pela defesa da proximidade entre as pessoas e as instituições europeias.

A política maltesa dedicou parte da sua narrativa à camada jovem europeia, à qual lançou um apelo: “A Europa pode ser melhor se agirmos em conjunto. Estou aqui hoje para lançar um apelo à juventude, aos jovens em particular, de não cederem ao conforto do cinismo fácil, para não aceitarem uma retirada para os extremos e para que o façam temos de continuar a ouvir as pessoas e a apresentar resultados também”.

No última dia da sua visita oficial a Portugal, que ocorre a um ano das eleições para o Parlamento Europeu, Metsola elencou, perante os deputados portugueses, os muitos desafios com que o bloco se depara, desde a “guerra no nosso continente, com a entrada ilegal da Rússia na Ucrânia”, à inflação, à “escassez da matérias primas”, passando pela questão da “transição climática”, que, nas palavras da própria, “não pode ser ignorada”, bem como “os testes à migração que precisam de uma abordagem europeia holística e a recuperação pós-pandemia, que continua a ser débil”.

Aquela que é a terceira mulher a ocupar o cargo em 70 anos salientou o “compromisso de Portugal com a democracia parlamentar europeia”, não escondendo o “orgulho de ver como a Europa fez e continua a fazer frente aos desafios” com que é confrontada.

“É verdade que Portugal sabe bem como ultrapassar os desafios geográficos, melhor do que a maior parte dos outros países. Os laços únicos deste país significam que a Europa consegue falar para o mundo e ouvir também de uma forma que permite um entendimento comum e que protege também o multilateralismo. Corvo, uma ilha que está tão longe dos EUA como de Bruxelas, mas é a nossa porta de entrada para o Globo. E a Europa é isso mesmo”, continuou.

As palavras de Metsola foram, também, ao encontro da defesa dos interesses das regiões autónomas portuguesas: “Não há lugar na Europa que seja demasiado longínquo para nos interessar. Esse é o nosso desafio conjunto e por isso que estamos a executar legislação europeia para que arquipélagos como os Açores e a Madeira possam ter mais recursos para prosperar. É assim que continuamos a puxar para cima o nosso continente”, defendeu.

Sobre os passos protagonizados pela União Europeia no campo da inovação digital, a sucessora do italiano David Sassoli, que morreu no início do ano passado quando ainda se encontrava em funções, sublinha que o bloco tem a agora “a legislação que lhe permite ser líder mundial [em termos de inovação digital] com bases em valores europeus”, não obstante ser necessária a adoção de “limites concretos e claros para a inteligência artificial”.

“Há uma coisa que não vamos deixar de fazer. Sempre que a tecnologia avançar, ter de ser acompanhada pari passu dos direitos fundamentais e valores democráticos”, acrescentou.

Sobre a densa pasta da migração, Metsola abordou o momento histórico dos Estados-membros, “que finalmente conseguiram chegar a acordo quando ao caminho  a seguir nesse dossier”, mas “entristecido com mais um naufrágio no Mediterrâneo em que mais vidas se perderam nos nossos mares”.

“A premência de chegarmos a acordo nesta pasta da migração é real e estou convicta de que podemos trilhar este caminho, encontrar uma solução respeitando as fronteiras, e que seja também justa e humana com aqueles que precisam de ser protegidos e firme para aqueles que não são elegíveis e também forte contra os traficantes de seres humanos que exploram as camadas mais vulneráveis do nosso planeta”, explicou.

“É essa a forma europeia de fazer as coisas, e é também a força portuguesa de fazê-lo. Não precisamos de estar a reinventar a rosa, mas podemos sim tornar o processo de decisão mais próximo das pessoas, reforçando a ligação aos parlamentos nacionais e tornar as pessoas mais cientes e conscientes do potencial da Europa para tornar a vida das pessoas um pouco mais fácil, mais segura”, defendeu também.

Recordando a data das próximas eleições para o Parlamento Europeu, que acontecem entre 6 e 9 de junho do próximo ano, Metsola insistiu na mensagem que quer “veicular para as pessoas”: “a Europa interessa-nos, faz sentido, a vossa voz, as vossas escolhas, o vosso voto importam. Não são apenas instituições europeias, são as pessoas”.

As palavras de Roberta Metsola foram antecedidas por um breve discurso de Augusto Santos Silva, que se pronunciou sobre a “orientação pró-europeia” do Parlamento português.

“Uma Europa mais afirmativa e coesa tem de ser cada vez mais democrática, atenta à voz dos cidadãos e das assembleias que os representam e a consolidação das instituições europeias nem prejudica a diversidade dos estados membros, nem diminui a relevância das decisões tomadas o mais perto possível das populações e dos territórios. A assembleia da República é um dos parlamentos que mais se interessam com a construção europeia, cooperando com o Parlamento Europeu e os outros parlamentos nacionais, pronunciando-nos sobre os assuntos da nossa competência, debatendo e fiscalizando os atos do Governo, dialogando com os parceiros sociais os poderes locais e regionais e a sociedade social, fazemos ponto de honra no acompanhamento permanente do processo europeu, acolhendo sempre a pluralidade das opiniões, como este debate demonstrará”, afirmou.

“Não me compete antecipá-lo, mas creio que posso e devo exprimir a orientação pró-europeia que é amplamente maioritária nesta câmara e, a partir dessa orientação, identificar de entre o vasto número de questões que definem a agenda atual das instituições europeias, quatro questões que motivam particularmente a atenção da Assembleia da República”, disse Santos Silva, defendendo, entre outras, a “ligação entre o reforço do modelo social europeu, implementando designadamente o pilar europeu dos direitos sociais, e o desenvolvimento da ação climática e da transição digital”.

“Face às vozes que reclamam a travagem do combate às alterações climáticas, para supostamente satisfazer as opiniões públicas, é preciso ser muito claro. A ação climática e o pilar social não são alternativas, são as duas dimensões mutuamente indispensáveis para assegurar uma transição justa que não deixe ninguém para trás e assim defender o futuro comum”, afirmou o Presidente da Assembleia da República.

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