Ir ao supermercado ou abastecer o carro de gasolina tem sido assustador para a maioria de nós, portugueses, por estes dias. Sim, para a maioria, porque dada a gritante desigualdade de rendimentos no nosso país, há quem ainda escape à brutalidade da inflação (embora o governo tenda a escamotear a inflação real para baixo do seu valor…). E esta variação nos rendimentos também se reflete nos gastos: nem todos gastamos da mesma forma e para quem ganha menos o cabaz de alimentos (que absorve cerca de 40% dos orçamentos familiares) e a energia são bens essenciais. Isto, a par da habitação com preços de mercado (compra ou aluguer) nunca vistos e incomportáveis para quem ganha até 1300 euros, ou mesmo mais! Para não falar dos juros do crédito à habitação que há muito asfixiam a classe média, para enriquecer a banca.
Não, um trabalhador que ganhe 1300 euros mensais e um CEO (como agora se diz) que ganhe 5000 euros (ou mais!) não estão em posição de igualdade para enfrentar este brutal aumento de despesas- a estrutura de despesas entre os dois é bem diferente.
Para termos ideia dos aumentos de preços é só compararmos o valor da energia e produtos alimentares do presente com os de há um ano: a primeira aumentou 5,6% e os segundos 6,3%. De nada nos tem valido o tão propalado “aumento” de salários e pensões (entre 2 e 2,8%), pois diluíram-se na inflação. E o poder de compra dos portugueses desce de forma galopante e preocupante. E tal não parece preocupar muito o governo ou os patrões – mesmo os das empresas que faturam milhões de lucros (como a banca, energia ou as grandes superfícies alimentares), sem que tal se reflita no aumento dos salários dos funcionários. A desculpa será a de que faltam os recursos, ou que a guerra e as tempestades vieram afetar o orçamento … – quando, na verdade, o governo vai arrecadar mais de 6,7 milhões mensais, de acordo com um estudo recente de Eugénio Rosa, com a escalada de preços dos combustíveis!
Uma das consequências inevitáveis de todo o aumento do custo de vida será o endividamento das famílias, segundo a Intrum, como forma de fazerem face às suas despesas, sobretudo as inesperadas, como emergências de saúde, e assim aliviar a pressão financeira. E este endividamento, inevitavelmente, agravará as dificuldades financeiras no futuro (“mais de metade dos consumidores das regiões autónomas apontam o custo de vida como principal razão em pagar dívidas”. O mesmo ocorre com a geração nascida entre 1965 e 1980).
Face a este aumento do custo de vida que ameaça empobrecer ainda mais os portugueses, há que avançar com medidas políticas urgentes. A redução de impostos para a classe média seria uma delas; a outra, obviamente, seria o IVA zero para o cabaz de bens essenciais. Se não… até quando aguentarão os portugueses?
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