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Europa pode manter estatuto de potência económica num regime multipolar fragmentado, projeta Constâncio

“A Europa não tem comunidade política suficiente para transformar o euro numa moeda global ou para se tornar uma superpotência militar, mas pode garantir a sua própria resiliência económica e prosperidade, mesmo que permaneça abaixo, mas perto, da fronteira tecnológica”, resumiu o antigo vice-presidente do BCE.
17 Abril 2026, 16h07

Apesar do risco criado pelo colapso aparente da ordem mundial unipolar e assente em regras definidas, a Europa tem capacidade para manter a sua posição como uma potência económica internacional num “quadro de reduzido conflito geopolítico”, projeta o antigo vice-presidente do Banco Central Europeu (BCE) Vítor Constâncio.

O antigo governador aproveitou a sua intervenção no 11º Congresso Nacional dos Economistas, realizado esta sexta-feira em Lisboa, para explicar as ramificações globais – embora focadas no Velho Continente – do declínio da “fase unipolar de domínio hegemónico dos EUA”. Neste cenário, em que as instituições internacionais vão perdendo influência, o autoritarismo e protecionismo crescem, a dissuasão nuclear ganha importância e a tecnologia agrava as desigualdades sociais, a “Europa será essencialmente uma potência económica”, projeta.

Nesta hipótese, o antigo vice-presidente do BCE vê a emergência de “um regime multipolar fragmentado”, levando ao declínio da globalização, embora “sem desaparecer completamente”, combinado com “uma tendência para a formação de blocos comerciais e financeiros”. E, comparado com um cenário mais otimista de reversão das tendências populistas e nacionalistas dos últimos anos, Constâncio vê uma maior probabilidade de materialização deste cenário adverso.

“A Europa não tem comunidade política suficiente para transformar o euro numa moeda global ou para se tornar uma superpotência militar, mas pode garantir a sua própria resiliência económica e prosperidade, mesmo que permaneça abaixo, mas perto, da fronteira tecnológica”, resumiu.

Em concreto, Vítor Constâncio ressalva as diferenças menores entre a economia europeia e norte-americana quando analisadas numa ótica de paridade de poder de compra do que em termos nominais, o que ajuda a ilustrar algumas das vantagens comparativas do bloco europeu.

Assim, e dada a “menor duração do trabalho, maior equidade social e maior esperança de vida do que nos EUA”, a UE “proporciona aos seus cidadãos um elevado nível de vida, com os seus equilíbrios orçamentais e externos, em melhor situação do que os EUA e a crescer num contexto aberto à concorrência internacional”.

Por outro lado, e apesar do estatuto em termos económicos, o espaço europeu arrisca, no plano geopolítico, tornar-se no “mais fraco dos poderes regionais, sem grande peso internacional, porque não tem unidade política suficiente para poder dispor de uma política de defesa comum e, sobretudo, do regime de dissuasão nuclear coletivo”.


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