Algumas empresas nos Estados Unidos têm vindo a implementar medidas para incentivar bons hábitos de sono, desde as recomendadas oito horas diárias até às sestas, com o objetivo de melhorar o desempenho dos trabalhadores.
Este tipo de medidas não é novidade. Países como a Espanha e Itália contemplam uma pausa no meio do dia para o almoço e sesta como parte da cultura nacional e laboral. Noutras partes da Europa, organizações como o “National Trust”, em Inglaterra, estão a começar a adotar essas “horas mediterrâneas” no verão devido ao aquecimento global.
Mas se é verdade que há algum tempo que se verifica uma conexão entre sestas e trabalho – um estudo de 2008 mostrou que mais de 30% das empresas americanas permitem ou incentivam sestas durante o dia, e 15% ou mais oferecem lugares adequados para isso (como a Google) – o conceito de “liderança do sono” dá um passo mais à frente, priorizando políticas que cuidem da qualidade do sono dos funcionários fora do horário de trabalho.
De facto, numa altura em que dominam as notícias sobre o aumento de casos de esgotamento profissional, ou ‘burnout’, este tipo de medidas podem, a par do aumento da produtividade, esbater esta tendência.
O cofundador e CEO da tecnológica Basecamp, Jason Fried, que acorda todos os dias às 10 da manhã, contou à “BBC” que priorizar o sono – e garantir regularmente horas suficientes de descanso de qualidade – é uma parte importante do que o torna um bom líder.
É uma mentalidade que vai contra muitos outros, que tendem, disse Fried, a usar a falta de sono como “um distintivo de honra”, especialmente na indústria de tecnologia. “Ouve-se as pessoas a gabarem-se: ‘Eu só consegui três horas de sono’ ou ‘fiquei a pé a noite inteira a trabalhar’”.
“É um pouco repugnante – essa ideia de que alguém ‘precisa’ de trabalhar tanto, e que é isso que a vai colocar à frente [dos outros]. Ninguém tem resistência ou capacidade mental para fazer 14 horas de trabalho”, acrescentou.
Em vez disso, Fried acredita na filosofia da Basecamp, “oito-oito-oito”: oito horas de trabalho e sono cada, e “oito horas de vida pelo meio”. “O que acaba por acontecer à maioria das pessoas é que o trabalho fica com a maior fatia; a vida é o que se encaixa nas lacunas e o sono é o que sobra”, apontou.
Nesta empresa, para além de se falar abertamente sobre o sono, as reuniões são limitadas e cuidadosamente agendadas para permitir grandes blocos de horas produtivas ininterruptas durante o dia, e os funcionários que enviam e-mails tarde recebem um “lembrete gentil” de que não é esperado que trabalhem depois do expediente.
A “liderança do sono” é ambivalente, de acordo com a professora assistente de psicologia Tori Crain, da Universidade de Portland. “Primeiro, trata-se de apoiar os trabalhadores durante o sono. São coisas como um supervisor mostrar cuidado, preocupação e verificar [como estão]”, disse à “BBC”. “E depois há a componente que é mais sobre entender e comunicar a importância do sono para fazer um bom trabalho e ter um bom desempenho”.
Para o CEO da Basecamp, Fried, este tipo de liderança é sobretudo prática. “Quando estás cansado, és péssimo”, assegurou. Os estudos comprovam-no. De acordo com van der Helm, neurocientista do sono, líderes privados de sono “são menos inspiradores” e a equipa “fica menos encorajada”.
Por outro lado, os funcionários que dormem muito pouco não têm o melhor desempenho. “Eles são mais propensos a serem reativos a fatores stressantes no ambiente de trabalho e têm mais dificuldade em regular as emoções”, acrescentou Crain ao canal britânico.
Há uma “relação verdadeiramente recíproca”, argumentou, entre o sono e o trabalho. “Se as pessoas não estão tendo desempenho no trabalho, isso causa stress e o stress afeta o sono. Não dormir bem afeta o desempenho no trabalho”.
À medida que as conversas sobre o bem-estar dos funcionários aumentam em muitas empresas – influenciadas pela pandemia e por uma força de trabalho cada vez mais nova – o sono de qualidade está a ganhar espaço.
“Estamos a ver campanhas semelhantes às de marketing dentro das organizações para consciencializar sobre o tema do bem-estar”, disse van der Helm. “Elas geralmente começam com exercícios e nutrição – acho que você deveria começar com o sono porque é fundamental”.
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