Visa diz que IA vai tornar o crédito mais personalizado

Antony Cahill, administrador da Visa, não decreta a ‘sentença de morte’ ao numerário, embora já nem use cartões de crédito. “Faço tudo pelo telefone”.

Será uma das maiores alterações de paradigma alguma vez vistas. A inteligência artificial (IA), aliada ao tratamento de dados potenciado pelos avanços computacionais, vai reformular a essência da indústria bancária. Teremos um banco no bolso, guardado no smartphone, a qualquer hora e a qualquer lugar. E, à medida que a conveniência dos serviços financeiros aumenta para o cliente final, também a informação que as instituições financeiras guardam dos clientes cresce exponencialmente.

Para Antony Cahill, managing director da Visa para a região europeia, umas das consequências da conjugação entre IA, aumento da capacidade computacional e tratamento de dados traduzir-se-á na possibilidade de “conceder o crédito certo, ao preço certo”.

“Pense-se em todas as fontes de dados que ficarão disponíveis quando estivermos a tomar uma decisão sobre crédito através do homebanking”, começou por referir Antony Cahill. “Enquanto mutuante, vou conseguir tomar uma decisão muito mais informado sobre o risco de crédito do mutuário”, salientou. “Vou perceber os hábitos de consumo e saber qual é que é o momento mais adequado para conceder crédito”.

No que diz respeito a algumas relações bancárias, parece que o futuro da banca já passou por Antony Cahill. Referindo-se a cartões de débito ou de crédito, disse: “já não falo em plástico porque tenho as credenciais da Visa no meu smartphone”. Além disso, revelou que se mudou para o Reino Unido há seis meses e que ainda não foi a uma agência bancária. “Não preciso, faço toda a minha atividade bancária a partir do meu telemóvel”, frisou. “Obtive a minha conta bancária inglesa através do telefone”.

Apesar de tudo, o administrador não arrisca em garantir o desaparecimento do numerário com toda a certeza. “O que posso dizer é que algumas em algumas economias, por exempo, nos povos nórdicos, cerca de 80% das transações são realizadas através de pagamentos digitais. A verdade é que o cash se tornou numa parte pequena da economia. Se vai desaparecer automaticamente? Não tenho respostas, mas creio que os pagamentos digitais vão tornar-se cada vez mais prevalecentes”, disse Antony Cahill.

Aproveitar o comboio das FinTech e da PSD2

A Visa tem por missão tornar-se “na melhor forma de pagar e de ser pago”, revelou Antony Cahill. Acompanhar os tempos modernos, nos quais surgiram as FinTech, tornou-se numa oportunidade para crescer. “Tradicionalmente, a Visa focava-se em lidar com instituições financeiras estabelecidas. Entretanto, percebemos que tínhamos de mudar a forma de lidar com estas FinTech e criámos um ecossistema” que abrange diferentes players, desde os comerciantes aos bancos, sem esquecer as startups especializadas em tecnologia financeira, explicou o administrador.

A Visa também se colocou entre os bancos e as FinTech, “algo como um match maker”, explicou Antony Cahill. Isto porque, enquanto os bancos têm o legado, as FinTech têm a capacidade de melhorar consideravelmente a experiência de ultizador, que “é o palco de batalho” da revolução digital na banca.

A nível regulatório, a Visa destacou a importância da segunda diretiva de serviços de pagamentos (PSD2), que está “a facilitar a disrupção” na Europa, por comparação com os Estados Unidos. “Hoje em dia, nos EUA, ainda é frequente passar cheques”, disse Antony Cahill.

Acima de tudo, a PSD2 cria oportunidades para novos agentes de mercado e incumbentes prestarem melhores serviços. Através dos application programming interface (API), será possível “ativar ou desativar um cartão bancário através do telemóvel, sem ser necessário falar com ninguém”. “Isto será útil quando se perder o cartão”, adiantou Antony Cahill.

No entanto, a segurança e a proteção dos dados terão de ser garantidas. “Se a integridade do sistema for comprometida, teremos um problema”, frisou o administrador da Visa.

De resto, em Portugal, a Visa já tinha aberto a sua rede de APIs antes da transposição da PSD2 para o ordernamento jurídico nacional, nos finais de 2018. Paula Antunes da Costa, country manager da Visa em Portugal, reconheceu que, apesar dos avanços da empresa norte-americana, o sistema português “é um bocado limitado porque foi construído no ecossistema corrente”, isto é, “como uma infraestrutura que é controlada pela mesma entidade” (a SIBS).

Em Portugal, o sistema “não é potencialmente tão aberto quanto a maioria dos operadores desejaria, mas, provavelmente, isso será algo que teremos de mudar ao longo do tempo”, reconheceu Paula Antunes da Costa.

Artigo originalmente publicado na edição do Jornal Económico nº 1991 de 31 de maio de 2019

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