Nem só de Gronelândia e Ucrânia se faz o Fórum Económico Mundial de Davos, Suíça: os temas económicos, aqueles que estão na base da criação do Fórum, também estiveram presentes, num debate, ou numa série deles, que concluiu pela crescente imposição de novas fronteiras à atividade económica. Perderam os que chegaram a afirmar com otimismo que a globalização tinha vindo para ficar, ganharam os mais cautelosos, que perceberam que o mundo deu uma volta de 180 graus. Neste contexto, o livre comércio está a dar lugar a uma nova era de comércio administrado: tarifas, controlos de exportação e políticas industriais restritivas estão a ser lançadas por todo o lado, numa tentativa de proteção nacional – facilmente confundível com nacionalista – dos mercados internos e da segurança das cadeias de fornecimento. Ou seja: o livre comércio está a desaparecer sob o impacto da geoestratégia em roda livre.
Na sessão intitulada ‘Muitas Formas de Comércio’, e com a presença de vários responsáveis – entre eles Ngozi Okonjo-Iweala, Diretora-Geral da Organização Mundial do Comércio (OMC), e Majid Al-Kasabi, ministro do Comércio da Arábia Saudita – foi dito que “o comércio está a passar de um modelo justo para um modelo gerido por regras: o mundo todo caminha para o protecionismo “e estamos a testemunhar a globalização regional” – foi o próprio representante saudita quem o disse. Para o ministro, o sistema comercial ‘antigo’ “tirou 1,5 mil milhões de pessoas da pobreza, criou emprego: “as regras cumpriram o seu papel… Mas agora assistimos ao aumento do protecionismo”, que pode bem reverter as regras e impor consequências opostas àquelas que foram patrocinadas pela globalização
A ‘globalizaçãozinha’
Vários dos presentes consideraram que a imposição discricionária de tarifas e de outras medidas protecionistas segue o caminho da valorização de uma atitude regional em relação ao comércio externo. Ou, dito de outra forma: segue o caminho da criação, desde logo por parte das grandes potências económicas, de zonas de conforto que não são mais do que o regresso às regiões de influência. As razões são em primeiro lugar políticas, mas também de estabelecimento de cadeias de abastecimento mais fiáveis e menos expostas aos avatares da geopolítica.
“É possível observar mais medidas protecionistas até mesmo entre os países do G20, acrescentou o ministro saudita. No contexto atual, “em que os países afirmam que precisamos de lutar pelos nossos interesses nacionais, quais são os limites?”, questiona. Ou seja, a globalização está a dar lugar a uma regionalização restrita aos ‘países amigos’ e já não ao mercado global em geral – uma espécie de ‘globalizaçãozinha’ que vai necessariamente ser mais limitada no seu alcance, mas também na sua capacidade de gerar receitas. Como foi tornado claro, esta nova regionalização terá como consequências deixar vários países – os mais impreparados para as exportações – de lado, criando uma espécie de mundo de segunda categoria, cujas populações não terão acesso a um nível de vida ‘decente’.
“À medida a que as declarações de soberania aumentam e as prioridades das políticas nacionais se sobrepõem às agendas globais, fazem-se necessárias novas abordagens para a cooperação global”, disse um dos presentes. O problema é saber-se que tipo de abordagens são essas, se serão exequíveis e principalmente se serão consequentes.
De algum modo contrariando esta perspetiva, Ngozi Okonjo-Iweala afirmou que “A OMC está longe de estar morta: sonho com as coisas empolgantes que estão a acontecer no comércio… O comércio digital é muito empolgante e está a acontecer a um ritmo acelerado”, exemplificou – certamente sem se recordar que os EUA e a UE acabam de lançar medidas contra a circulação de encomendas de baixo valor, que, no limite, podem acabar com parte substancial das compras que os pequenos consumidores se habituaram a fazer a partir de casa e que vale, ou valia, milhões de euros por ano.
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