António Saraiva: “São necessárias medidas que estimulem a recapitalização das empresas”

O presidente da CIP diz que a evolução das exportações é positiva, principalmente num ambiente em mudança. Mas avisa para riscos

O presidente da CIP Confederação_Empresarial de Portugal, António Saraiva, diz que a aceleração do crescimento das exportações portuguesas mostra que as empresas portuguesas são competitivas, mesmo quando se nota “alguma degradação de indicadores tradicionais de competitividade externa”. No entanto, considera que persistem problemas para os quais é necessário reunirem-se condições para que sejam resolvidos. Em entrevista ao Jornal_Económico, destaca como entraves ao desenvolvimento das empresas portuguesas exportadoras a sua reduzida dimensão, em média, a persistente dificuldade no acesso ao financiamento e a escassez de mão de obra qualificada. Aponta como necessidades o incentivo à recapitalização, um quadro fiscal mais amigo do investimento e investimento na formação. E diz que, mesmo com os problemas identificados, o objetivo de as exportações atingirem um peso de 50% do produto interno bruto (PIB) é exeqível e, até, pouco ambicioso. . “Se se mantivesse a atual evolução do PIB e das exportações, atingiríamos este valor já no final de 2020”, aponra.

Como avalia a evolução recente das exportações portuguesas?

Avalio de forma muito positiva. Os resultados do segundo trimestre dão conta de um crescimento das exportações de bens e serviços de 7%, recuperando do abrandamento registado no início do ano e continuando a conquistar ganhos de quota nos mercados externos.

Estes dados mostram também que 54% do crescimento da economia se ficou a dever ao contributo do aumento das exportações, líquidas do respetivo conteúdo importado.

São números que revelam o valor e a resiliência do setor exportador, bem como a sua importância para a economia.

Acresce que estes resultados foram alcançados num contexto de alguma degradação de indicadores tradicionais de competitividade externa, o que mostra que a capacidade competitiva das empresas portuguesas nos mercados internacionais vai para além de ganhos por via dos custos ou dos preços.

Quais são os principais entraves ao desenvolvimento das empresas exportadoras?

Destacaria a sua reduzida dimensão, as dificuldades de acesso ao financiamento e, recentemente, a crescente escassez de recursos humanos qualificados.

A grande fragmentação do tecido empresarial representa um handicap, quando pensamos na dimensão crítica necessária para que uma empresa possa dispor dos recursos indispensáveis à internacionalização.

Daí a importância do crescimento e da concentração e cooperação empresarial para atingir maiores níveis de competitividade.

Além disso, para aprofundarem a sua internacionalização, para inovarem em termos de produtos e processos, para aumentarem a sua competitividade e a sua capacidade produtiva, as empresas precisam de investir.

Ora, para investirem, as empresas precisam de financiamento.

Precisamente, um dos principais problemas das empresas portuguesas é a dificuldade que têm no acesso ao financiamento, dificuldade que, por sua vez, está relacionada com o facto de muitas delas ainda apresentarem elevados níveis de endividamento e uma excessiva dependência de crédito bancário de curto prazo.

É esta a razão da minha insistência na necessidade de medidas que favoreçam a recapitalização das empresas.

Finalmente, a escassez de recursos humanos qualificados começa a surgir como um entrave ao seu desenvolvimento, o que é agravado pela desadequação entre a oferta e a procura de qualificações e competências.

Por isso, é fundamental que mais recursos sejam destinados à formação profissional e que os centros de formação profissional e as escolas profissionais com vocação empresarial sejam dotados das condições que lhes permitam desenvolver o seu potencial.

De que ferramentas necessitam as empresas para conseguirem exportar mais?

Como disse, para conseguirem exportar mais, as empresas precisam de aumentar a sua competitividade e a sua capacidade produtiva. Isto passa necessariamente, por mais investimento e por recursos humanos que as capacitem para aproveitar todas as oportunidades que os mercados externos oferecem. São por isso necessárias medidas que estimulem a sua recapitalização e facilitem o acesso ao financiamento, um enquadramento fiscal mais favorável ao investimento e uma oferta formativa que preencha a atual escassez de qualificações.

Que riscos a CIP antevê para a evolução das exportações portuguesas?

Na envolvente externa, não são poucos os riscos de deterioração do enquadramento favorável de que as exportações portuguesas têm beneficiado: a economia europeia já está a desacelerar e há perspetivas de um abrandamento da atividade e do comércio mundiais, no quadro das atuais tendências protecionistas, vindas sobretudo dos EUA; depois, o fim do programa de estímulos monetários extraordinários do Banco Central Europeu tornará menos favoráveis as condições monetárias e financeiras que contribuíram para o dinamismo económico na Europa.

Acresce o processo do Brexit continua marcado por uma grande incerteza, que pesa sobre as empresas que mantêm atualmente relações com o Reino Unido, diretamente ou de forma indireta, através da participação em cadeias de valor globais; e, nas últimas semanas, abriu-se uma crise entre a Comissão Europeia e o Governo italiano em torno do orçamento do Estado, com consequências imprevisíveis para toda a Europa.

Tudo isto me leva a crer que as dinâmicas do comércio internacional se vão tornar mais adversas, penalizando mais quem for menos competitivo.

Na envolvente interna, alguns sinais indiciam que a evolução positiva das exportações terá sido, em parte, conseguida através de uma redução excessiva das margens, situação que importa reverter, pois compromete uma presença sustentável nos mercados e a própria capacidade de investimento das empresas.

Esta situação chama-nos a atenção para a necessidade de acautelar o risco de um aumento dos custos superior ao aumento da produtividade minar a rentabilidade das empresas exportadoras e a nossa competitividade externa, com impactos negativos nas exportações.

É possível atingirmos um peso das exportações de 50% do PIB?

O Programa Internacionalizar fixou este objetivo para a primeira metade da próxima década.

É uma meta que está ao nosso alcance. Diria mesmo que não é muito ambiciosa. Se se mantivesse a atual evolução do PIB e das exportações, atingiríamos este valor já no final de 2020.

 

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